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Paulo Cesar Conceição (Professor Doutor em Ciência do Solo)

No dia 15 de abril comemoramos o dia Nacional de Conservação do Solo, instituído em 13 de novembro de 1989, por meio da Lei nº 7.876, em homenagem ao americano Hugh Hammond Bennett (15/04/1881). Benett foi considerado o “pai da conservação do solo Mundial” em decorrência de suas experiências pioneiras sobre solos e agricultura e de sua capacidade de comunicação, que fizeram com que suas pesquisas fossem reconhecidas internacionalmente. A primeira legislação mundial sobre conservação do solo foi publicado pelos norte-americanos em 1935, tendo portanto mais de 80 anos de existência.    

O estado do Paraná sempre se destacou no cenário nacional como um estado de vanguarda em termos de conservação do solo, tendo sido o berço do desenvolvimento do plantio direto nos ano 70 do século passado, uma tecnologia eficiente para manutenção da qualidade do solo e melhoria do potencial produtivo, desde que respeitados os seus princípios básicos, quais sejam o mínimo revolvimento do solo, rotação de culturas e produção elevada de palhada para manter uma cobertura do solo muito próxima a 100%.    

Nos últimos anos, porém, temos tido preocupações recorrentes quanto a temática de conservação do solo, relacionadas em especial a presença de erosão hídrica em áreas sobre plantio direto. Por isso, o 15 de abril de 2017 não poderia passar despercebido pois marca também um momento em que há o fortalecimento de políticas públicas voltadas a retomada de ações necessárias para que conservar o solo não seja apenas um preceito e, sim, uma prática adotada pelos produtores rurais.    

Embora o Paraná possua também uma legislação de vanguarda, a Lei 8014 de 1984, o conhecimento da mesma por produtores e técnicos é pequeno e a aplicação da legislação ainda incipiente. Dessa forma, criou-se uma falsa impressão que o solo pode ser manejado de acordo com o “gosto” do produtor rural, algo que não é válido.    

Práticas conservacionistas, antes de serem uma opção do produtor, são previstas na legislação por serem fundamentais na manutenção do recurso escasso denominado solo. Entre elas destaca-se o plantio direto, a manutenção de palhada constantemente sobre o solo, o uso e manutenção de terraços adequadamente projetados por um profissional técnico habilitado para tal, entre outras técnicas necessárias para redução do risco do processo erosivo.    

Um dos problemas associado ao manejo do solo se refere a baixa adição de resíduo (palhada da cultura anterior). Isso é muito comum na combinação soja safra- feijão safrinha (ou soja safrinha, quando utilizado), pois, o período para desenvolvimento das culturas de inverno torna-se muito curto, resultando em solos sob pousio (sem culturas de junho a agosto) ou com culturas com baixa condição de adição de resíduo, como verificado em condições de campo no ano de 2016 na região Sudoeste onde muitas lavouras de aveia foram dessecadas com produção de biomassa inferior a uma tonelada por hectare, insuficiente para controlar o processo erosivo pelo impacto da gota de água da chuva no solo. Nesse aspecto o Sudoeste é uma das regiões de maiores potenciais erosivos das chuvas, sendo os maiores índices registrados nos meses de janeiro (semeadura de culturas de verão safrinha), maio (semeadura de culturas de inverno) e outubro (semeaduras de cultura de verão).    

Adicional, o produtor rural ao intensificar o processo produtivo tem efetuado maiores trânsitos de maquinaria na área, muitas vezes sob condições de umidade inadequada, potencializando processos de compactação do solo. Por conta disso, muitos produtores tem se valido do uso de implementos para escarificar/subsolar o solo, retomando uma prática agrícola em uso nos anos 90 do século passado denominado de preparo reduzido ou cultivo mínimo. Além de representar gasto adicional de combustível, em muitas condições o uso desse equipamento tem se mostrado inadequado, seja pelo fato que o solo revolvido tende a compactar novamente em curto espaço de tempo pelo efeito do tráfego excessivo, seja pelo fato que a ausência de sistemas radiculares adequados e abundantes restringem o efeito da escarificação apenas ao momento que ele foi executado, quando ocorre.    

Sob essas condições o uso de terraços torna-se indispensável por funcionar como uma barreira mecânica para o escoamento superficial da água, evitando que a mesma ganhe velocidade e, por conta disso, aumente o potencial de carregamento de partículas do solo, matéria orgânica e nutrientes, pois o conceito mais moderno de erosão engloba a perda desses três componentes, além, obviamente da perda de água. E água que escoa e vai embora é água que não se infiltra. Água infiltrada no solo aumenta o armazenamento permitindo maior resistência a pequenas estiagens. No entanto, terraços exigem manutenção, o que significa que de tempos em tempos deve ser refeita a parte mais alta do terraço (crista) para manter a mesma profundidade do canal. Associado a isso, a escarificação dentro do canal do terraço esporadicamente também deve ser adotada, especialmente se o produtor utiliza o terraço como um local de trânsito para o maquinário dentro da lavoura. Terraço sem manutenção é terraço sem função.    

Assim, a retomada de programas de incentivo as boas práticas agrícolas, denominadas conservacionistas, está no rol do Programa Integrado de Conservação de Solo e Água do Paraná. Iniciativas como editais de apoio a pesquisa na temática de manejo e conservação do solo como propostas pelo governo estadual são fundamentais para que o tema, atualíssimo, retome o espaço necessário para que evitemos cenas de erosão hídrica como tem sido percebido na região em cada evento de maior intensidade de chuva, pois isso acarreta perda de nutrientes, poluição ambiental e custos adicionais para a sociedade como um todo.

Artigo publicado na edição de Maio/17

 

 


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