Jacto

A temática da qualidade do leite nunca esteve tão em alta quanto agora. A recuperação do preço do leite tem estimulado aos produtores de leite a tomarem ações para reduzirem os prejuízos causados pelas mastites, tanto clinicas como subclínicas. Os meios pelos quais os produtores vêm buscando esses resultados são bastante diversos e entre eles a cultura na fazenda vem crescendo muito rapidamente como ferramenta para o combate das mastites clinicas.

Não restam duvidas que esta é uma ferramenta que veio para ficar e que pode prestar um excelente auxilio no controle dos casos clínicos de mastite. Entretanto assim como em laboratório convencionais o resultado que for precariamente gerado, seja pelo uso de uma técnica de baixa acurácia ou precisão, seja pela má condução de uma boa técnica, podem causar mais prejuízos do que ajudar. 

No caso da cultura na fazenda, temos que entender que estamos trabalhando com um tipo de análise em que:

1- Estamos tratando de uma analise que envolve a identificação de um dos mais numerosos e variados grupos de organismos: as bactérias. Deste modo, mesmo dentro da mesma espécie teremos comportamentos por vezes completamente distintos nos testes aplicados, devido a variabilidade genética desse grande grupo de organismos. Por isso, técnicas robustas utilizadas para a identificação desses agentes empregam múltiplos testes para reduzir o erro, o qual sempre existira em maior ou menor proporção.

 

2- A amostra (leite) usada para a identificação pode facilmente sofrer contaminações externas e revelar como resultado da análise a bactéria que está na mão do ordenhador, ou na pele do teto do animal, ou no micro grânulo de fezes ou serragem que caiu dentro do frasco durante a coleta. A identificação do crescimento de uma contaminação requer bastante experiencia e trino por vezes.

 

3- A sobre utilização de materiais além da capacidade para as quais os mesmos foram projetados pode induzir a erros de interpretação. O jeitinho brasileiro definitivamente está instalado em todas as esferas, sendo que o agronegócio não poderia ficar de fora desse leque. Placas de cultura que foram projetadas para receberem uma única amostra, por questões de custo, acabam recebendo duas, três ou ate quatro amostras. Em alguns casos isso pode até funcionar, mas o erro inerente a sobrecarga de utilização de espaço pode facilmente induzir ao erro de interpretação e logo um erro de tomada de decisão.  Um carro 1.0 foi feito para 4 pessoas, apertando até poderão caber 12, mas qual a chance de isso dar algum problema?

 

4- Não há capacidade de nenhum sistema de cultura na fazendo hoje existente em substituir um laboratório ou até mesmo atua como tal.  Hoje, infelizmente empresas, cooperativas e alguns profissionais autônomos tem atuado como laboratórios, recebendo amostras e emitindo laudos diagnósticos, baseados em sistemas de cultura na fazenda. Na sua grande maioria distribuem vale brindes onde o produtor, na compra de produtos recebe direito a analisar determinado número de amostras de forma “gratuita”. O desserviço a qualidade do leite é tamanho que em uma situação flagrada em propriedade que possui corriqueiro diagnóstico laboratorial realizado no rebanho, a mesma não só recebeu o laudo com diagnóstico microbiológico (discordância de mais de 60% com as analises realizadas pelo método ouro de diagnóstico) como também havia na coluna ao lado do agente identificado o tratamento indicado a ser feito, sem nenhum cuidado ou preocupação com variáveis a serem avaliadas antes de se decidir despejar um antibiótico (presente na farmácia veterinária do analisador) em um caso de mastite subclínica.

 

5- Quem está interpretando o resultado no sistema de cultura na fazenda esta capacitado para tal?  Em um recente trabalho realizado por um pesquisador italiano diferentes sistemas de cultura na fazenda foram submetidos a avaliação de resultados gerados a partir de pessoa com vasto treinamento, apenas portando orientações descritivas fornecidas pelo fabricante e estas mesmas amostras foram submetidas a um teste de altíssima confiabilidade diagnóstica. Os resultados mostraram que quando havia interpretação por parte de pessoas muito bem treinadas, os resultados tinham alta correspondência com o método laboratorial. Já quando houve esparso treinamento, os resultados ficaram bastante prejudicados. Em muitas realidades o habito de lavar as mãos não é um habito dentro da fazenda. Esta pessoa está pronta para fazer um exame microbiológico. Esta pesquisa nos mostra que a cultura na fazenda passa longe de ser um produto pronto para o desmame técnico, portanto devendo ser rotineiramente acompanhado por técnicos experientes e submetido a retestagem por métodos mais robustos. 

 

6- Erros diagnósticos podem ter duas consequências graves para o rebanho e para aqueles que manipulam o sistema. Errar no diagnóstico significa errar na ação. Sendo que o rro na tomada de ação quando se fala em mastite pode significar a cronificação de rebanhos por agentes que podem resultar em índices catastróficos na rentabilidade da fazenda dentro de um curto espaço de tempo. Além disso, determinados agentes quando replicados em placas de cultura e expostos a ingestão ou contato com seres humanos podem ser ate mesmo fatais. 

A mensagem principal de quem a algum tempo percorre fazendas pelejando em prol da qualidade do leite remete a cautela. Aos produtores e técnicos, certifiquem-se de que o teste aplicado a um determinado diagnóstico foi realizado por profissional habilitado, experiente e com uma técnica adequada para a situação. Em hipótese nenhuma cultura na fazenda substitui laboratórios convencionais, principalmente para casos de mastite subclínica. 

Os cuidados com a validade, confiabilidade e procedência dos resultados contido em um laudo diagnóstico devem ser levados muito a sério, ou você aceitaria qualquer tipo de exame para se submeter a uma cirurgia?  O mesmo cuidado que temos com a nossa saúde, devemos ter com a saúde dos nossos rebanhos, pois devemos lembrar que além de ser o ganha pão de muita gente, também produz alimentos para o consumo de milhões, inclusive para quem produz este leite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dr. MV Marcos André Arcari

Médico Veterinário - Universidade de Passo Fundo - RS

Mestrado e Doutorado

Universidade de São Paulo

Departamento de Nutrição e Produção Animal 

marcos.labmast@hotmail.com


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