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Por Amélio Dall’Agnol e Samuel Roggia, pesquisadores da Embrapa Soja


 A regulamentação das misturas em tanque de vários produtos químicos (habitualmente 2 a 5, mas podendo chegar a 7) para o controle de pragas, doenças e plantas daninhas está a caminho de uma solução. Os Ministérios da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente estão em vias de editar uma Instrução Normativa disciplinando essa prática, até o momento ainda não regulamentada apesar de já ser utilizada mundialmente. A mistura em tanque nunca esteve proibida no Brasil, apenas é tolerada, desde que os riscos de potenciais inconvenientes sejam assumidos pelo agricultor. Segundo Dionísio Gazziero, pesquisador da Embrapa Soja, 97% dos técnicos e produtores entrevistados num amplo questionário sobre o tema utilizam a mistura de produtos químicos (inseticidas, fungicidas e até fertilizantes de aplicação foliar) em tanque para pulverização, porque é comum a ocorrência simultânea de diferentes espécies de insetos-praga, além de plantas daninhas e doenças. 
Assim, não existe um único produto capaz de controlar todos esses problemas fitossanitários. A mistura de vários produtos, cada qual destinado a controlar um problema, tem seu uso generalizado entre os produtores porque eles vislumbram mais benefícios do que potenciais malefícios nesta operação. Os benefícios vislumbrados pelo produtor para a mistura em tanque são: economia de tempo e dinheiro com a redução do número de aplicações, maior agilidade no processo, amplo espectro de controle das pragas e redução da compactação do solo, entre outros. Mas há o outro lado dessa moeda. As misturas em tanque podem reduzir a eficiência dos produtos misturados, aumentar a chance de causar fitotoxidades, além de outros inconvenientes que o produtor, via de regra, desconsidera, por concluir que vale a pena correr esses riscos. *Estudos da Embrapa Soja indicaram que na aplicação simultânea do princípio ativo Tiametoxam + Lambdacialotrinacom diversos fungicidas, a eficiência de controle de percevejos foi reduzida entre 46% e 61%, relativamente ao uso singular do inseticida. Seria desejo do setor produtivo que o agrotóxico chegasse ao mercado contendo informações sobre compatibilidades e incompatibilidades com outros produtos, o que se espera aconteça com a edição de uma Medida Provisória regulamentando o tema. Até meados dos anos 80, a bula dos agrotóxicos trazia informações sobre compatibilidades e incompatibilidades de diferentes produtos, indicando o que podia ou não ser misturado e em que condições. Em geral, o produtor sabe que não é necessário aplicar inseticida contra percevejos, quando estes aparecem antes da formação das vagens nas plantas da soja. Mesmo assim, muitos produtores aproveitam a necessidade de pulverizar algum fungicida para, também, aplicar o inseticida, já presentes na lavoura, mas ainda em baixa densidade populacional e sem potencial para causar danos à soja. Via de regra, a necessidade de pulverizar a lavoura para o controle da ferrugem antecede a necessidade de controlar os percevejos, o que não justificaria misturar o inseticida com o fungicida, para controlar ambos. Mas nem sempre a necessidade de controlar um fungo antecede a necessidade de controlar os percevejos. Em regiões, como o oeste do Paraná, onde variedades superprecoces são semeadas muito cedo, podem produzir vagens antes de a ferrugem aparecer. Neste caso, a regra é inversa, pois a necessidade de controlar os percevejos pode ocorrer antes do aparecimento do fungo da ferrugem. Em tais circunstâncias, a utilização simultânea do inseticida com o fungicida poderia justificar-se. O manejo integrado das pragas da soja recomenda que o controle dos percevejos só se justifica quando há presença de vagens nas plantas (a partir do estádio R3) e quando a população média de percevejos for de 2 ou 1 (≥ 0,4cm) por metro linear em lavouras destinadas à produção de grãos e lavouras produtoras de sementes, respectivamente. Não faz sentido aplicar o inseticida antes de a cultura alcançar esse estágio de desenvolvimento, ou antes de a população de percevejos atingir o nível de ação. Tal prática apenas contribui para a poluição ambiental desnecessária e a elevação do custo de produção. Então, na intenção de economizar dinheiro com o aproveitamento da pulverização, o agricultor pode perder eficiência no controle de percevejos. Num novo contexto de regulamentação das misturas de agrotóxicos em tanque, ganha importância o desenvolvimento de pesquisas para orientar os agricultores sobre o que pode ser misturado ou não. *Esses dados referem-se a um estudo realizado em laboratório usando uma dose diagnóstica (DL25) de uma formulação comercial do inseticida Tiametoxam + Lambda-cialotrina. A dose dos fungicidas utilizados no ensaio foi determinada com base na dose de campo corrigida pelo mesmo fator de diluição do inseticida. Não foram utilizadas doses comercias dos produtos, mas sim, doses diagnósticas que permitissem avaliar a interação entre os produtos. A metodologia do ensaio em laboratório utilizada consiste na aplicação tópica diretamente sobre os percevejos e permite avaliar o efeito de contato dos produtos. Não contempla todas as formas de contaminação que o percevejo teria em campo, como a contaminação tarsal (por caminhamento), ingestão, entre outras. Os dados foram obtidos em condições controladas, em laboratório, onde a exposição dos insetos é padronizada e uniforme, porém os dados não foram validados em condições de campo. Até o momento foi estudado apenas a interação de fungicidas com o inseticida Tiametoxam + Lambdacialotrina, porém a regulamentação das misturas em tanque deve estimular o desenvolvimento de estudos mais profundados e detalhados sobre o tema, incluindo outros inseticidas e outras classes de produtos.

Embrapa Soja

 


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