Jacto

A cerca de 3 anos atrás, cultura microbiológica na fazenda para identificação de patógenos causadores de mastite era algo distante para o Brasil. Entretanto depois de um tímido inicio e propagação, o sistema de “Cultura na Fazenda” se espalhou igual rastilho de pólvora pelo Brasil todo. Diversas opções de placas e modos de comercialização surgiram para levar ao produtor essa ferramenta, que com o passar do tempo começou a ser vendida por alguns como uma solução completa para resolver problemas de qualidade do leite.

Mas onde está o problema da difusão dessa ferramenta? O problema não esta em o produtor ter cultura na fazenda em sua propriedade, tão pouco o custo do sistema. O maior dos problemas está no modo e finalidade ao qual  se aplica a ferramenta em grande parte das propriedades.

Não é incomum, chegando a ser frequente o contato de produtores e até mesmo colegas técnicos, solicitando a aquisição da “estufinha para evitar casos de mastite” ou a “estufinha para baixar a ccs” ou ainda “ a estufinha para fazer o teste que indica o antibiótico correto para tratar a mastite”. Logicamente, cada contato desses é esclarecido quanto a possibilidade e limitações do uso da ferramenta. Entretanto o que chama a atenção é e frequência com que esse tipo de solicitação chaga até nós, indicando que o mito da estufinha milagreira, capaz de resolver os problemas referentes a mastite circula pelas rodas de conversas entre técnicos e produtores.

O sistema de cultura na Fazenda evita casos de mastite?

Em absoluto, não. A implantação de um sistema de cultura na fazenda não evitara um único caso de mastite que ira acontecer dentro do rebanho. A ocorrência , frequência e tipo de mastite que acontece em um determinado rebanho é determinado pelo manejo, ambiente e por caraterísticas da vaca (status imunológico, idade, DEL...). Poderemos evitar ou reduzir a casuística mastitica no rebanho se alterarmos rotinas de manejo, melhorarmos a qualidade dos produtos como pré e pós dipping, adequarmos o ambiente as necessidades higiênicas da vaca. Esta sensibilidade na orientação de mudanças somente partirá de profissionais devidamente conhecedores da etiologia da mastite e da adaptação dos procedimentos a limitação da propriedade.

O uso de cultura na fazenda ira baixar a contagem de células somáticas?

Na grande maioria dos casos, não. Reduzir e manter baixa a contagem de células somáticas é um processo que envolve tempo, monitoramento contínuo, informação e muita estratégia técnica e econômica. Boa parte da estratégia para resolver uma elevada contagem de células somáticas envolve e resolução de casos subclínicos de mastite, onde o emprego da cultura na fazenda não encontra respaldo cientifico para ser aplicado, uma vez que um considerável conhecimento em microbiologia devera ser empregado no correto diagnóstico. Ai fica uma pergunta: Teremos isso na maioria de nossas fazendas? 

Na esmagadora maioria dos casos a resolução de elevadas contagens de células somáticas passara pelo uso de eficientes protocolos de vaca seca; monitoramento e eliminação de vacas crônicas  portadoras de mastites causadas por agentes do grupo cura zero, alteração na rotina de manejo, revisão e manutenções periódicas no equipamento de ordenha,  alteração na qualidade dos produtos empregados no manejo de ordenha e por fim eficientes tratamentos dos casos clínicos para que estes não se tornem crônicos e geradores de altas contagens de células somáticas. Portanto, sem toda uma mudança de estrutura na rotina da fazenda, o uso de cultura na fazenda será incapaz de gerar algum tipo de mudança na contagem de células somáticas.

O sistema de cultura na fazenda consegue indicar o antibiótico correto para tratar eficazmente os casos de mastite?

Infelizmente não. A cultura na fazenda indicará o agente causador da mastite, Baseado nisso haverá a montagem de um protocolo para o tratamento do caso, envolvendo o uso de antibióticos e anti-inflamatórios ou somente anti-inflamatórios. Ai vem a pergunta: Conhecendo o agente teremos maior eficácia no tratamento? A resposta é que não necessariamente, uma vez que as chances de cura de um tratamento de mastite estão em maior parte ligados a características da vaca do que propriamente ao antibiótico usado. Vacas com DEL ou idade mais avançadas terão menos chances de cura do que animais mais jovens. Vacas imunodeprimidas terão menos chances de cura do que vacas com imunidade mais elevada. Vacas que tenham contraído o seu primeiro caso de mastite tem maiores chances de cura do que vacas que já passaram por outros casos . Se prestarmos atenção, os fatores mais importantes no sucesso de um tratamento estão ligados mais a vaca do que propriamente ao antibiótico escolhido.

Mas para que serve a cultura na fazenda? Somente para tirar foto posando de microbiologista e postar nas redes sociais?

Não. Esta é uma ferramenta muito útil se bem utilizada, entretanto assim como uma chave de rodas não se presta a função de um bisturi, a cultura na fazenda não deve ser utilizada como um canivete suíço “ Fazer um pouco de tudo, mas tudo mal feito”. Cultura na fazenda não é laboratório e não deve ser usado para gerar laudos com indicações mágicas de tratamento. Um tratamento de um caso de mastite será sim mais eficiente se conhecermos o agente causador, ou poderá ser mais eficiente se não acontecer tratamento dependendo das características ligadas a vacas assim não o indicarem (idade, número de casos, DEL, etc...).

Em um bom número de casos a correta orientação devera induzir a propriedade a fazer o feijão com arroz, alocando recursos financeiros e de recursos humanos em ações de manejo mais urgentes a serem corrigidas como por exemplo o uso de um bom pré diping ou o uso de um bom protocolo de vaca seca. Ferramentas como a cultura na fazenda tem seu espaço e e função para introduzidas em praticamente todas as fazendas, no momento e com a filosofia de uso corretas.

 

Dr. MV Marcos André Arcari
Médico Veterinário - 
Universidade de Passo Fundo - RS
Mestrado e Doutorado
Universidade de São Paulo
Departamento de Nutrição e Produção Animal 
marcos.labmast@hotmail.com


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