Jacto

A dicotomia entre a produção de frangos de corte e o inverno pode assustar, mas basta estarmos preparados para aproveitar o melhor deste período. Para alguns podem ser apenas dificuldades, para outros, oportunidades.

Por que este período pode causar pânico? Pelos desafios que temos em algumas regiões brasileiras, como a baixa temperatura e a alta umidade relativa do ar (ar muito úmido e cama úmida prejudicam as aves). Somamos também a dificuldade em manter uma boa qualidade da cama e do ar.

Para estes desafios começamos a preparar a propriedade durante o intervalo entre lotes. Neste período recomenda-se uma boa fermentação, um bom controle de pragas (cascudinhos e ratos), retirada da umidade da cama, revirando bem este material. Evitando-se umidade na cama, evitam-se problemas de qualidade do ar no momento de alojamento dos pintainhos.

Uma limpeza e manutenção dos equipamentos além de deixar a lenha estocada próxima aos aquecedores e não na chuva, também são tópicos que não devem ser esquecidos.

Sabendo que as aves são animais homeotermos (animais que mantêm a temperatura corporal constante próximo a 41°C) e que seu sistema termorregulador é pouco desenvolvido, muita atenção deve ser despendida para a criação de frangos no inverno, onde a temperatura externa é baixa e as aves necessitam de aquecimento artificial da área de alojamento para o controle da temperatura corporal.

Por muito tempo, o controle do ambiente de alojamento dos aviários foi regulado apenas por meio de sensores de umidade e temperatura do ar, os quais acionavam os sistemas de climatização (ventilação e aquecimento) automaticamente. Ultimamente, também há o foco em controlar a resposta do animal em relação ao bem-estar, geração de gases, saúde e produtividade. A partir destas observações utiliza-se a tecnologia existente para facilitar o manejo e o controle ambiental com os diversos controladores disponíveis no mercado. Esse controle auxiliar baseado na resposta do animal pode ser feito por mensurações diretas a partir do consumo de ração e de água, monitoria do crescimento, câmeras filmadoras e fotográficas (imagens térmicas) e microfones (vocalização). O uso dessas tecnologias torna-se um aliado para o manejo das granjas durante o controle ambiental para o frio: animais agrupados, fugas de ar pelas cortinas/laterais e forração, excesso de ruídos, são exemplos de respostas obtidas pelas novas ferramentas com aplicação avícola.

            A condensação de vapor (bem conhecida quando “chove” dentro do aviário) durante a fase fria é um desafio no manejo dos lotes, pois para evitá-la é necessário uma boa ventilação mínima (taxa de renovação de ar) e consequentemente um aquecimento melhor. A condensação ocorre sobre uma superfície quando a sua temperatura se encontra abaixo da temperatura de ponto de orvalho. A temperatura de ponto de orvalho é definida a partir da temperatura do ar (ou temperatura de bulbo seco) e de sua umidade relativa. Para se definir as condições de temperatura e umidade de um ambiente, se utiliza a carta psicrométrica. Com isso, pode-se conhecer qual temperatura e umidade do ar deve estar no interior do aviário, para que se evite a condensação do vapor d’água no forro da instalação, por exemplo. Ou o uso de materiais com função de isolamento térmico (que evitem que o frio externo baixe a temperatura superficial do teto e, consequentemente, da forração).

Um bom aquecimento tem que ser uniforme ao longo da instalação, ter aquecimento muito concentrado (especialmente na fase inicial) em determinados pontos afeta a formação dos órgãos vitais, pois, cria microclimas, onde parte do aviário permanece muito quente e parte muito fria, levando a desuniformidade do lote, má formação de coração, pulmão, sistema digestivo e imunológico. Por isto o bom ambiente nos primeiros 7 dias de vida é extremamente determinante em seu resultado final. Pintainho com dificuldade de desenvolvimento inicial inviabiliza um desempenho produtivo considerado como padrão, pois perde-se muito em mortalidade e em conversão alimentar, ocorre o desenvolvimento de doenças metabólicas como ascite e abrem-se portas para outros desafios  sanitários durante o lote.

Para saber se o aquecimento de um aviário é suficiente para atender a demanda fisiológica das aves podemos calcular, conforme exemplo abaixo:

 

Fórmula para cálculo de necessidade de aquecimento (Catálogo Debona, 2013):

  • Característica de vedação do aviário (V):

1 = parede alvenaria c/ laje

2 = parede alvenaria c/ forro lona

3 = parede madeira c/ forro lona (laminado)

4 = cortina lateral c/ forro lona (laminado/laminado)

  • Área necessária para aquecimento (Var):

Definir o volume de ar neste espaço que será ocupado pelos frangos. Sugere-se para aviário de 1200m de comprimento utilizar a área ocupada aos 14 dias.

Comprimento= 78m

Largura= 12m

Altura= 2,4

Assim o valor de Var= 78x12x2,4 = 2.246,4

  • Diferença de temperatura entre a desejada no aviário e a externa (∆T).

Considerar temperatura externa de 0°C e temperatura desejada para 14 dias de idade de 27°C, conforme recomendação do Manual de Manejo de Frango de Corte da Cobb.

∆T= 27-0= 27°C

  • Necessidade de aquecimento (Na):

Na = V x Var x ∆T

Na = 4 x 2.246,4 x 27

Na = 242.611,2 Kcal/h

Isto significa que nesse aviário é necessário um aquecedor que forneça 242.611,2 Kcal de calor por hora. Esta necessidade de calor pode ser suprida por dois aquecedores distribuídos no pré-aquecimento e no meio da pinteira, distribuindo o calor e contribuindo para diminuir a amplitude térmica na instalação.

Com a necessidade de calor suprida analisamos a vedação do aviário para que não ocorram perdas do calor fornecido pelos aquecedores. Aviários bem vedados mantêm melhor a temperatura, economizam lenha e garantem melhor ambiente para o desenvolvimento dos pintainhos. Uma boa vedação consiste em cortinas íntegras, bandôs, envelopes, todas as portas bem vedadas, forro bem esticado e dimensionamento correto da entrada de ar.

Outro ponto muito importante é a qualidade de lenha a ser utilizada no inverno, lenha muito fina gera calor rápido, porém igualmente de queima rápida, o que não é agradável. Lenha com maior espessura tem tempo de aquecimento maior. Lenha úmida e verde são um grande problema, geram fumaça e pouco calor. Neste último caso, a durabilidade da combustão é maior comparada à lenha seca, mas o calor gerado é menor, além de causar inúmeros problemas ao equipamento, por haver alta impregnação da resina em todo sistema. A fumaça excessiva prejudica a saúde do colaborador e dos animais, podendo levar a sérios problemas respiratórios.

Podemos utilizar como base para considerar a lenha ótima para consumo seguindo os resultados de Sturion e Tomaselli (1990) onde de forma bem prática determinam o tempo de estocagem de lenha e sua produção de energia:

A lenha armazenada em barracão ou ao ar livre por 4 meses tem o poder calorífico quase 3 vezes maior comparado à lenha cortada e logo depois utilizada. Significa que lenha mais seca gera mais calor e acaba sendo mais econômica ao empresário rural.

Com equipamentos adequados, estrutura e aviários bem preparados no intervalo de lotes o resultado dependerá apenas do manejo dos lotes. Todo trabalho bem feito gera bons frutos!

 

 

Referências:

 

Catálogo Debona. Linha 2013. http://www.debona.com.br/Manual.pdf

Manual de Manejo de Frango de Corte da Cobb, 2009.

Sturion, J. A. e Tomaselli, I. Influência do tempo de estocagem de lenha de bracatinga na produção de energia. Boletim de Pesquisa Florestal, Colombo, n. 21, p.37-47, dez. 1990.

 

Profª. Drª. Angélica Signor Mendes (UTFPR/DV)

Coordenação de Agronomia

angelica@utfpr.edu.br

Artigo publicado na edição de Abril/18


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