Jacto

Olá! Sou eu de novo, Zé Bento. Nas disciplinas que cursei até agora no Mestrado, vi que não é muito comum um contato mais “chegado” com os professores como tive na minha graduação no Brasil. As aulas são dadas em grandes anfiteatros, com turmas que variam de 50 até 250 pessoas por classe. Portanto, é difícil criar um vínculo entre professor e aluno meio a tanta gente e tanto trabalho de leitura e escrita que envolve o programa. Mas na disciplina de Marketing para o Agronegócio no último semestre, tive uma excelente professora que me mostrou que não é sempre assim.

            Em uma de suas aulas, a Sra. Gall comentou sobre um evento que aconteceria em algumas semanas, o Dia de Campo de Elmore. Tratava-se de uma feira agrícola no estilo Show Rural (embora em proporções muito menores). E assim que eu mostrei interesse em participar, ela prontamente disse que organizaria um ônibus para levar todos que estivessem dispostos e nos arranjaria todas as facilidades para podermos participar do evento. Os meses se passaram e somente eu e mais um colega (também de Curitiba) confirmaram a presença. Ela então disse que nos levaria pessoalmente a Elmore de carro, e poderíamos passar a noite anterior ao evento no campus de ciências agrárias da Universidade de Melbourne.

O dia chegou e lá estávamos nós. De mochilas nas costas e prontos para conhecer um pouco do interior da Austrália. Elmore fica a mais ou menos 175km de Melbourne, e pode ser acessado por rodovias diretas ou até de trem. A viagem demorou mais ou menos duas horas, e passamos por muitos lugares interessantes. Em sua maioria, as propriedades de beira de estrada que pude ver cultivavam canola, trigo, frutas, olerícolas e animais como carneiros e gado de corte e leite. Falando nisso, a professora, além de coordenadora do campus de agrárias, também é produtora de carneiros para corte! E no meio do caminho recebeu uma ligação dizendo que alguns deles deveriam ser preparados para carregamento no dia seguinte. Fiquei surpreso quando ela nos perguntou: “vocês sabem andar de quadriciclo? Eu poderia usar mais duas pessoas para me ajudar a trazer os animais para a sede.” Topamos no ato! E a simples visita ao Dia de Campo tinha acabado de se tornar uma aventura muito mais interessante.

            Ao chegarmos lá, entramos em um galpão onde haviam algumas máquinas estacionadas, junto a um quadriciclo e um buggy Polaris. Esqueçam cavalos para tocar o gado. O serviço era motorizado! Saímos direto para o campo, e o cachorro da família não precisou nem ser chamado para subir na garupa. Nós três fomos em busca das 100 cabeças em piquetes não tão distantes. A fazenda possuía pouco mais de 50 ha, com áreas bem planas e tudo muito bem organizado. Quando todos os animais estavam reunidos na mangueira, a família ajudou na separação dos animais prontos para embarque. Um processo simples, porém, muito prazeroso e divertido.

Depois de conhecermos um pouco melhor a propriedade, paramos para conhecer a fazenda da universidade em Dookie. Fundado em 1866, o campus já tinha então o objetivo de formar jovens produtores e gerar conhecimento através da pesquisa na área agrícola no interior de Victoria. Atualmente, possui 2.440 ha e os colaboradores, em conjunto com alunos, operam na produção de carneiros, grãos, pomares, parreirais e uma leiteria. Grande parte da área é preservada como mata nativa, ou como eles gostam de chamar, o bush (arbusto em inglês). A leiteria foi o que mais me chamou a atenção. Totalmente robotizada, o sistema ordenha as vacas sem necessidade de ação humana e, com base nos teores e qualidade do leite, destina o animal ao consumo de alimento concentrado ou volumoso. Com capacidade para até 180 animais, a energia do galpão e do sistema de irrigação do campo é gerada por painéis solares, e grande parte da água utilizada vem de captação pluvial. No final do dia pudemos ainda conhecer alguns dos alunos de Agronomia da Universidade e pudemos dar uma volta nas lavouras. Fiquei muito impressionado de ver cangurus selvagens saltando pelas lavouras de trigo e bandos de cacatuas descansando nas árvores. Realmente, algo de outro mundo. Fomos servidos um jantar delicioso e pudemos dormir no alojamento do próprio campus. Atendimento de primeira!

No dia seguinte acordamos cedo e fomos acompanhados até Elmore por um dos coordenadores de Dookie. Bill, como era chamado, não só nos levou até o evento, como esteve conosco o dia todo e nos apresentou a vários de seus colegas. O evento que compreendeu arte, tecnologia, maquinário, negócios e outras soluções para produção agrícola dura geralmente três dias e reuniu mais de 1300 empresas do agronegócio. A Austrália não tem uma montadora sequer de veículos, e o mesmo acontece com maquinário agrícola importado. Tudo vem de fora, sob encomenda, e é possível trazer o que o cliente desejar. As grandes marcas estavam presentes, de todos os tamanhos, para todos os gostos. Colheitadeiras com plataformas de 45 pés, tratores de esteira, pulverizadores. Mas o que mais me impressionou foram as plantadeiras. Hastes maciças de ferro fundido mais pareciam escarificadores, mas eram comuns nesse tipo de implemento. A camada arável do solo australiano tem, em média, não mais que 5 centímetros. Para todas as camadas abaixo disso, é necessário algo muito robusto para quebrar a compactação. Discos de corte e facão? Quase nenhuma, a adoção do plantio direto aqui é muito baixa e é pouco interessante para os produtores.

Pudemos dar uma caminhada e ver alguns equipamentos novos, conhecemos alguns negociadores de grãos da região e assistimos a algumas demonstrações muito interessantes. Um final de semana realmente marcante pela experiência fora da cidade. Foi muito bacana ter tido a oportunidade de conhecer esse outro lado da Austrália, conhecer pessoas realmente envolvidas na produção rural e poder aprender algo fora da sala de aula. Na volta de trem à Melbourne, me lembrara do quão fantástica foi a sensação de estar à campo novamente, e sei que muitos de vocês me entenderão. Me fez lembrar do grande motivo pelo qual sou apaixonado pelo agro.

 

Um grande abraço da terra dos cangurus! Até aproxima.

 

Artigo publicado na edição de Março/18


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