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O manejo das vacas leiteiras no período pré-parto é crítico para que o desempenho produtivo e reprodutivo dos animais seja satisfatório. O que acontece com a vaca durante a lactação, especialmente no período inicial, depende diretamente do que foi feito com ela nas 3-4 semanas antes do parto. Um dos aspectos mais discutidos é o escore de condição corporal (ECC) das vacas no momento da secagem e do parto. A recomendação clássica é ter vacas chegando ao parto com ECC em torno de 3,25. Vacas parindo muito magras ou muito gordas têm muito mais chances de ter problemas ao parto e no início da lactação. O ideal é que as vacas já cheguem ao momento da secagem com o ECC correto para o parto, o que nem sempre acontece.

Se a vaca chega ao parto com ECC acima de 3,50 ela terá maior risco de desenvolver diversos distúrbios metabólicos, como cetose, febre do leite (hiopocalcemia), deslocamento de abomaso, etc. Além disso vacas mais gordas apresentam menor ingestão de matéria seca (IMS) após o parto, o que agrava ainda mais os problemas. Entretanto, se o ECC ao parto for menor que 3,00 a produção de leite tende a ser menor, o animal não atinge o pico esperado de produção e pode perder peso em excesso, o que será desastroso para a eficiência reprodutiva.     

Até hoje temos utilizado o ECC como um dos parâmetros principais para monitorar a condição das vacas no período de transição, mas trabalhos recentes de pesquisa mostram que talvez seja necessário observar outros aspectos também para ser mais eficiente no manejo das vacas nessa fase, especialmente para a prevenção dos distúrbios metabólicos que causam tantos prejuízos nos rebanhos leiteiros. O estudo de Dracley et al. (2014), que acaba de ser publicado no Journal of Dairy Science, traz considerações sobre o efeito dos depósitos de gordura visceral sobre a saúde das vacas leiteiras, e as relações disso com o ECC e o manejo nutricional dos animais.     

Pesquisas biomédicas recentes têm focado no papel do aumento dos depósitos de gordura visceral (gordura omental e mesentérica) na patogenia de problemas crônicos em humanos, como síndromes metabólicas e desordens inflamatórias do aparelho digestivo. Em particular, o aumento na quantidade de gordura mesentérica está relacionado ao desenvolvimento de resistência à insulina em ratos e humanos. No entanto, sabe-se muito pouco sobre as alterações na massa ou funções dos depósitos internos de gordura em vacas leiteiras, principalmente no período de transição.     

O acúmulo de lipídios no tecido adiposo das vísceras, cuja circulação venosa drena o sangue para o fígado, pode resultar em grande quantidade de ácidos graxos livres chegando a esse órgão, bem como adipocinas inflamatórias, que podem afetar a função hepática, como já demonstrado em outras espécies. O papel desses compostos na ocorrência de problemas metabólicos de vacas leiteiras também já foi estudado. É sabido que a mobilização excessiva de gordura das reservas corporais para atender a demanda energética de vacas no período de transição é o grande determinante dos distúrbios relacionados ao metabolismo de gordura, como a Cetose e a Esteatose Hepática, mas sabe-se muito pouco sobre o papel da mobilização da gordura acumulada nas vísceras, e como isso se relaciona com a nutrição das vacas.    

A hipótese do estudo de Dracley et al. (2104) era que vacas não lactantes (secas) recebendo dietas ricas em energia, similares às que causaram Fígado Gorduroso nas vacas em outros ensaios, acumulariam mais gordura nas vísceras do que vacas alimentadas com dietas menos energéticas. Trabalhos anteriores do mesmo grupo de pesquisa mostraram que o controle da ingestão de energia pelas vacas durante o período seco para níveis próximos dos requerimentos para mantença e gestação, evitando excesso de consumo, resultava em melhor balanço energético pós-parto, menos concentração de AGL no sangue e menor acúmulo de gordura no fígado no início da lactação. No entanto o papel dos depósitos viscerais de gordura nesses processos ainda é desconhecido.     

O ensaio usou duas dietas que diferiam no teor de energia líquida – 1,62 x 1,35 Mcal/kg MS, fornecendo-as a dois grupos de vacas por 8 semanas, à vontade. O grupo que recebeu a dieta mais energética apresentou maior IMS e maior consumo total de energia, confirmando que acesso livre a dietas ricas em energia leva a consumo exagerado de energia por vacas secas. A IMS das vacas que receberam a dieta mais energética também foi bastante superior à do grupo que recebeu menos energia – 15,9 x 11,2 kg/d, ficando em patamar bem acima da predição do NRC (2001) para vacas secas gestantes (12,6 kg/d). Isso levou a uma diferença de peso vivo entre os grupos ao final do experimento, sendo que, como esperado, as vacas que receberam a dieta mais energética apresentaram maior PV do que as demais (806 x 751 kg). Mas o mais interessante foi que não se observou diferença estatística para ECC entre os grupos (3,52 x 3,47), apesar da grande diferença na massa de gordura visceral entre os grupos.     

O ECC estima apenas os depósitos de gordura subcutânea, e os resultados deste experimento apontam para a necessidade de também avaliarmos outros parâmetros para monitorar eficientemente as vacas em transição, a fim de evitar a ocorrência de distúrbios metabólicos no início da lactação. O estudo em questão não avaliou a quantidade de gordura subcutânea, mas como não houve diferença estatística para o peso de carcaça entre os tratamentos, o que indica claramente que a diferença de peso entre os grupos foi devido à diferença na deposição de gordura nas vísceras.     

Logicamente são necessários muitos estudos sobre esse assunto para determinar com clareza o papel do depósito visceral de tecido adiposo no metabolismo de vacas em transição e ocorrência de distúrbios metabólicos, mas é muito interessante essa observação de que diferenças na massa de gordura acumulada nos órgãos não são detectadas pela avaliação do ECC.

O estudo mostrou claramente que o consumo de mais energia aumenta essa massa gordurosa visceral, e se isso pode representar um maior risco de problemas para a vaca no início da lactação, devemos ficar atentos. O que pode ser feito é avaliar a variação do PV além do ECC, e observar com muita atenção a ingestão de matéria seca e de energia pelas vacas no período seco, a fim de evitar problemas.

Artigo publicado na edição e Abril/16

Marcelo Vaz Alves Zootecnista

 




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