Jacto

Dentre os grãos produzidos no Brasil, certamente o feijão é o mais controverso. De longe a leguminosa mais consumida in natura pela população Brasileira e extremamente apreciada pela população no tradicional “arroz com o feijão” do prato Brasileiro, mas que tem se tornado ao longo dos anos uma cultura extremamente marginalizada.

Entenda como marginalizada, pela falta de incentivos e regulação do processo produtivo, não quanto as questões de potencial produtivo. Tanto que, atualmente o feijão é produzido em todo o território nacional em até três safras por ano, o que proporciona uma oferta regular de produto ao longo do ano, o que de certa forma, acaba influenciando a cadeia de comércio do grão, mas isso é uma conversa para depois.

Apesar de ser cultivado o ano inteiro, em muitas regiões produtoras, como o estado do Paraná por exemplo, que é o maior produtor Nacional de feijão, o feijão é uma cultura de importância pequena no hall das culturas anuais, estando muito atrás da soja, milho e trigo, tanto que se observa maiores áreas de cultivo na safrinha, ou safra seca (de janeiro a abril), do que na safra das aguas ou safra (de setembro a dezembro), que seria o período mais adequado para a cultura quando se espera um alto potencial produtivo.

Esse fato já demonstra um dos principais usos da cultura do feijão, sua utilização na safrinha para ocupar a área e obter lucratividade após a colheita da cultura principal (seja soja, principalmente, ou milho), sendo que este cultivo em muitos casos é de investimento reduzido, muitas vezes chamado de “risco zero”, pois o produtor usa a resteva da cultura da safra principal para produzir o feijão em safrinha, quase sem investimentos, e assim, o que for produzido resulta em uma boa margem ao produtor.

Esse contraponto, muitas vezes, pode ser explicado pelo produtor pois em diversas ocasiões este investiu na lavoura de feijão e devido a frustrações de safra obteve um retorno de produção bem aquém do esperado, fazendo-o perder boa parte do recurso investido.

Porém, cabe salientar que a cultura do feijão é altamente responsiva ao investimento aplicado. Em regiões produtoras do centro oeste do país (Goiás e Distrito Federal), onde ocorre grande investimento na cultura, se obtêm tetos de rendimentos, fazendo a média de produtividade chegar em 3.000 Quilogramas por hectare, o triplo da média nacional e o dobro da nossa média de produtividade aqui no Paraná, ou seja, em regiões altamente tecnificadas e com investimento na cultura, existe sim a resposta da cultura e a possibilidade de altas produtividades com a cultura.

Mas logicamente aliado a esse potencial produtivo que pode ser explorado pela cultura do feijão está o fornecimento das melhores condições para o crescimento e desenvolvimento da cultura, e aqui está outro contraponto em relação a cultura. Apesar de ser uma cultura que apresenta alta responsividade as condições positivas do meio, o feijão é uma cultura bastante sensível as condições negativas do ambiente, fazendo que em anos de adversidade climática o feijão tende a ter bastante limitação no potencial produtivo, proporcionando uma redução na produção em anos desfavoráveis.

Isso se deve ao fato do feijão ser uma planta mais sensível que outras culturas anuais. Se fizermos uma comparação com seu “parente” mais próximo a soja, a cultura do feijão tem um aproveitamento menor de sua área foliar fotossinteticamente ativa, menor exploração do solo pelo sistema radicular (bem menos agressivo que o da soja), consequentemente um menor aproveitamento da agua e dos nutrientes em condição de stress, resultado em menor potencial produtivo em situações menos favoráveis.

Outro ponto que faz com que o feijão fique um pouco para trás do seu primo rico, a soja, é a fixação biológica do nitrogênio, que na soja é uma realidade (embora tente se contrariar essa verdade atualmente), no feijão o processo de aproveitamento do nitrogênio atmosférico ainda engatinha, devido principalmente ao reduzido sistema radicular, a baixa afinidade das bactérias fixadoras e do ciclo curto da cultura.

Falando em ciclo curto, essa característica e talvez, agronomicamente falando, o principal ponto favorável ao cultivo do feijão pois permite que a cultura seja utilizada em janelas de cultivo curtas (o ciclo da cultura geralmente não passa dos 90 dias), permitindo ao agricultor faça uso da cultura em situações pontuais em que utilizar outra cultura de ciclo mais longo ficaria inviável.

A cultura apresenta também outros desafios como o manejo fitossanitário com a pressão de plantas daninhas, doenças de difícil controle e o ataque de pragas, que afetam uma cultura comparativamente mais sensível e de menor potencial competitivo e de regeneração. Nesse capítulo, cabe um destaque para a questão da mosca branca, que era uma praga anteriormente limitada ao centro oeste do país e que no último ano atacou severamente as lavouras de feijão do Paraná, inclusive aqui na região sudoeste.

Porém a cultura do feijão não tem só características negativas. Além de ela poder ser cultivada em diversas épocas, principalmente pelo seu ciclo, a cultura possui uma rede de pesquisa forte e bastante articulada. Enquanto que as commodities (soja, milho e trigo) tem seu “patrimônio genético e científico”  fechado nas empresas detentoras da tecnologia, a cultura do feijão é ainda bastante subsidiada pela pesquisa publica, fazendo com que se avance bastante cientificamente com a cultura, um exemplo disso é o desenvolvimento da primeira cultivar transgênica de feijão feita pela Embrapa, sendo resistente ao Mosaico Dourado, doença viral bastante importante e que tem como vetor a mosca branca, que já apareceu aqui em nossa conversa.

Outro ponto que, literalmente, leva a cultura a ter altos e baixos, é o preço pago pelo produto. Por ser o maior consumidor mundial do feijão, e importar pouco deste grão, as oscilações de safra fazem com que ocorra uma grande variação no preço pago pelo produto, desde valores que colocam o feijão como vilão da inflação nacional (em que se ter feijão armazenado é sinal de ostentação) até a situações e que não é rentável fazer a colheita do grão, quanto mais comercializá-lo.

De toda forma, apesar dos pesares, é raro o brasileiro que não goste de ter em sua mesa um belo prato de feijão (muito embora a correria do dia a dia nos prive deste luxo) o que faz com que essa cultura ainda permaneça como vital para a agricultura Brasileira, pois sempre haverá procura por esse nobre grão. Resta apenas que essa cultura seja encarada com maior seriedade por toda a cadeia produtiva (desde o produtor, passando pelo mercado atravessador, governo e órgãos regulatórios) para que o feijão retome sua condição  como uma cultura vital na agricultura Brasileira, sendo uma opção para os agricultores, não só em cultivo de safrinha e quando o preço pago ao produtor está estratosférico e sim em qualquer condição de cultivo, valorizando assim esse produto tipicamente nacional. 

 

Matéria publicada na Folha Agrícola na edição de Janeiro de 2017

Lucas da Silva Domingues - UTFPR Dois Vizinhos




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