Por Márcio Barboza*
A agricultura brasileira e a norte-americana figuram entre as mais relevantes e estratégicas do mundo, não apenas pelo expressivo volume de produção, mas sobretudo pela capacidade de alimentar populações, gerar divisas e impulsionar a inovação tecnológica no campo. Inseridas em contextos climáticos, culturais e regulatórios distintos, essas duas potências agrícolas compartilham pilares fundamentais que explicam sua competitividade global: escala produtiva, elevado nível de profissionalização, forte adoção de tecnologia e um foco cada vez mais consistente em sustentabilidade e eficiência operacional.
Nesse cenário, ambas avançam em direções paralelas, lidando com dilemas comuns que moldam o futuro do agronegócio mundial. Entre esses fatores estratégicos, o preparo do solo assume papel central tanto na agricultura brasileira quanto na norte-americana. Trata-se de uma das etapas mais decisivas para o sucesso das safras, influenciando diretamente a produtividade, a conservação dos recursos naturais e a eficiência dos sistemas produtivos.
Em ambos os países, os produtores precisam lidar com solos de diferentes níveis de fertilidade, adotar práticas conservacionistas e buscar modelos produtivos cada vez mais eficientes. A combinação entre manejo adequado das áreas, tecnologias avançadas e equipamentos de alto desempenho tornou-se essencial para reduzir riscos, otimizar custos e sustentar a competitividade das lavouras em um ambiente agrícola cada vez mais complexo e exigente.
Ao longo de mais de 20 anos de atuação direta com preparo de solo no Brasil e nos Estados Unidos, pude vivenciar de perto a realidade e os desafios enfrentados pelos produtores nos dois países. Essa experiência prática evidenciou a necessidade de a indústria desenvolver tecnologias e soluções realmente adaptadas às particularidades de cada região, capazes de entregar resultados consistentes, eficiência operacional e retorno ao produtor. O grande diferencial, nesse processo, sempre foi compreender profundamente as necessidades locais e respeitar o perfil cultural de cada sistema produtivo.
Diferenças no preparo do solo
Nos Estados Unidos, o preparo do solo exige maior intensidade de manejo em função dos extremos climáticos. Em diversas regiões, especialmente nos estados do Norte, o plantio direto, amplamente difundido no Brasil, não é viável devido ao frio intenso e à presença de neve. Nessas condições, a incorporação dos resíduos vegetais ao solo torna-se indispensável, pois, sem esse manejo, a decomposição da matéria orgânica não ocorre no intervalo necessário entre uma safra e outra.
Após a colheita, geralmente entre setembro e outubro, o avanço do inverno e das nevascas ocorre rapidamente. Caso o solo não seja devidamente trabalhado antes desse período, ao chegar a primavera, em março, ele ainda estará congelado, dificultando o início do plantio. A mistura antecipada da terra com a matéria orgânica acelera a decomposição, favorece o processo de degelo e melhora a infiltração de água.
No Brasil, país de clima predominantemente tropical, essa necessidade é significativamente menor. Aproximadamente 70% a 90% dos produtores adotam o sistema de plantio direto, aproveitando a palhada como estratégia para conservação da umidade do solo, controle da erosão e melhoria da estrutura física.
Outra diferença relevante está no sistema de cultivo. Nos Estados Unidos, em geral, realiza-se apenas uma safra por ano, enquanto no Brasil é comum a realização de duas ou até três safras na mesma área. Isso exige do produtor norte-americano um nível ainda maior de assertividade e precisão nas operações, uma vez que há apenas uma oportunidade anual para alcançar elevados patamares de produtividade.
Tecnologias adaptadas às realidades locais
Diante dessas particularidades, um dos grandes desafios para empresas brasileiras que acessam o mercado norte-americano é a adaptação, ou nacionalização, de equipamentos e soluções à realidade local. Isso envolve compreender o perfil do produtor, os sistemas de manejo e aspectos técnicos fundamentais, como o espaçamento entre linhas para diversos tipos de culturas, que influencia diretamente o desenvolvimento e a aplicação de implementos.
Além disso, tecnologia embarcada e conforto operacional são exigências cada vez mais relevantes para os agricultores norte-americanos. Por isso, o desenvolvimento de soluções precisa estar alinhado a esses critérios para competir com os fabricantes locais. A atenção à qualidade é rigorosa e abrange desde o acabamento, pintura e soldas até o design e os componentes utilizados.
Essa exigência está diretamente relacionada ao modelo predominante de produção americano, baseado majoritariamente na agricultura familiar. Muitas propriedades operam exclusivamente com a mão de obra da própria família, sem funcionários. Os proprietários participam ativamente de todas as etapas da produção, do preparo do solo à colheita, o que reforça a busca por equipamentos versáteis, eficientes, confortáveis e que demandem menor esforço operacional.
No Brasil, embora o produtor esteja cada vez mais exigente, fatores como preço e fidelidade a marcas tradicionais ainda exercem forte influência na decisão de compra. Apesar de a base produtiva também ser majoritariamente familiar, é comum a presença de funcionários nas operações, enquanto o proprietário dedica-se mais à gestão do negócio, o que torna o custo um elemento determinante na aquisição de equipamentos.
Tendências e oportunidades para a indústria brasileira
Ao longo de minha trajetória em grandes agroindústrias com foco no mercado internacional, especialmente nos EUA, observei uma tendência clara de aumento da potência dos tratores e do tamanho dos equipamentos agrícolas. O objetivo é cobrir áreas cada vez maiores em menos tempo.
Se no passado a gradagem atingia larguras de até 6 metros, operando a velocidades médias de 9 km/h, hoje o mercado já conta com equipamentos de até 13 metros de largura de corte, operando a aproximadamente 20 km/h. Isso representa um salto significativo em eficiência operacional, permitindo maior cobertura de área com ganho expressivo de produtividade. Fabricantes norte-americanos e empresas brasileiras já inseridas nesse mercado acompanham atentamente essa evolução tecnológica.
Nesse contexto, há amplas oportunidades para a indústria brasileira. Os produtores norte-americanos demonstram grande atenção aos detalhes do dia a dia da operação, monitorando processos e buscando continuamente soluções que otimizem tempo e desempenho. Além disso, são abertos ao compartilhamento de conhecimento, valorizando a troca de experiências e reconhecendo a expertise brasileira em tecnologia agrícola.
Outro diferencial relevante é o maior acesso dos agricultores norte-americanos a subsídios governamentais, que oferecem melhores condições de financiamento e taxas de juros mais competitivas, incentivando investimentos contínuos em inovação.
O futuro da agricultura
A agricultura norte-americana avança rapidamente rumo à automação e ao uso de equipamentos independentes. Tecnologias capazes de executar tarefas com alta precisão, sem a necessidade de operadores, já são realidade em grandes propriedades, especialmente naquelas que investem fortemente em inovação.
Essa tendência tende a se intensificar nos próximos anos, impulsionada, entre outros fatores, pela escassez de mão de obra qualificada no campo. Equipamentos autônomos, capazes de operar 24 horas por dia, sete dias por semana, com eficiência e qualidade, devem ganhar ainda mais espaço.
Esse cenário abre uma janela estratégica de oportunidades para a agroindústria brasileira investir no desenvolvimento de tecnologias voltadas a esse segmento. A demanda do mercado norte-americano tende a crescer, especialmente em soluções aplicadas ao preparo de solo, com impacto direto no aumento da produtividade e na sustentabilidade da agricultura global.
* Técnico em Agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais, especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes.