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20 de maio de 2026 - 15:00h

A Folha Agrícola

ARTIGO: Melhores práticas globais na agricultura e conservação de polinizadores

*Por Heber Luiz Pereira

A proteção das abelhas e de outros polinizadores é um pilar estratégico para a sustentabilidade da agricultura contemporânea e para a segurança alimentar global. Estima-se que, entre 75% e 80% das culturas alimentares dependam, ao menos em parte, da polinização animal, o que evidencia o papel central desses organismos não apenas na produtividade agrícola, mas também na qualidade nutricional, na diversidade dos alimentos e na estabilidade dos sistemas produtivos. Além disso, os polinizadores contribuem para a manutenção da biodiversidade, assegurando serviços ambientais essenciais, como a regeneração de áreas naturais e a resiliência frente às mudanças climáticas.

Diante desse cenário, em vários lugares do mundo, vêm sendo implementadas ações concretas voltadas à integração entre produção agrícola e conservação ambiental. Entre elas, destacam-se a adoção de práticas agrícolas que favorecem a presença de polinizadores nas áreas produtivas (como diversificação de culturas e manejo mais criterioso de insumos), a manutenção e recuperação de habitats no entorno das lavouras e o desenvolvimento de pesquisas e sistemas de monitoramento que orientam melhor as decisões no campo. Paralelamente, iniciativas de capacitação e de articulação entre diferentes atores têm contribuído para incorporar a polinização como um elemento estratégico no planejamento agrícola.

Na União Europeia, por exemplo, o foco tem sido tornar a conservação de polinizadores uma prática operacional no campo. Entre as medidas mais comuns estão: criação de corredores ecológicos e áreas com plantas melíferas nas bordas de talhões, diversificação de culturas e redução de pulverizações em horários de maior atividade de voo das abelhas. Na apicultura, avançam ações de monitoramento sanitário e rastreabilidade, com registros de mortalidade para orientar correções de manejo. Como incentivo prático, muitos países europeus combinam pagamentos por práticas agroambientais com programas de extensão rural e guias técnicos padronizados para as boas práticas apícolas e agrícolas. Na relação agricultor–apicultor, é frequente a formalização de acordos de polinização e a comunicação prévia de pulverizações, além do uso crescente de aplicativos e protocolos locais para avisos de aplicação, posicionamento de colmeias e definição de zonas de segurança.

Nos Estados Unidos, a integração entre agricultura e polinização é estruturada com foco em manejo de risco e acordos operacionais. É comum o uso de contratos de serviços de polinização, especialmente em culturas como amêndoas, maçã, mirtilo e melão, com padrões mínimos de desenvolvimento das colmeias, logística de transporte definida e janelas específicas para aplicação de defensivos. No campo, produtores adotam faixas floridas, coberturas vegetais, técnicas de redução de deriva e priorizam aplicações em períodos de menor atividade das abelhas, além de selecionar estratégias de controle com menor risco para polinizadores.

Os incentivos concentram-se em programas de conservação, assistência técnica, seguros e exigências de mercado. Em várias regiões, produtores recebem apoio para implantação de habitats e orientação para conciliar o controle de pragas com a proteção de polinizadores. Iniciativas privadas e o compartilhamento de dados sobre incidentes também têm contribuído para reduzir perdas e aprimorar práticas.

No Canadá e na Austrália, as estratégias combinam biossegurança e manejo sanitário. No Canadá, são amplamente adotadas orientações para reduzir riscos durante pulverizações, com destaque para comunicação prévia, atenção ao florescimento e monitoramento da presença de abelhas. Também são comuns ações de restauração de habitats com espécies melíferas. Na Austrália, o foco está na continuidade da polinização e na vigilância de pragas e doenças, com protocolos rigorosos para o trânsito de colmeias e resposta rápida a emergências sanitárias.

Nesses países, destacam-se como incentivos a remuneração de serviços de polinização, com padrões de manejo e sanidade apícola; programas de treinamento e certificações/boas práticas que facilitam o acesso a mercados; e apoio técnico para implantação de habitats e gestão integrada de pragas. Em ambos os países, a integração entre apicultores e agricultores se materializa em acordos de posicionamento de colmeias, compartilhamento de calendários para manejo fitossanitário e, principalmente, na comunicação para reduzir riscos associados à exposição a defensivos agrícolas.

No Brasil, a proteção de polinizadores exige adaptação às condições tropicais, que impõem desafios relevantes, como a pressão contínua de pragas e a variabilidade ambiental ao longo do ano, o que exige monitoramento constante e estratégias adaptadas às realidades locais de cada estado.

Nesse contexto, a sanidade das colmeias está diretamente associada à qualidade do manejo e à capacidade de interpretar sinais precoces de desequilíbrio. A identificação oportuna de alterações no desenvolvimento das colônias permite diferenciar causas sanitárias de eventos externos e orientar decisões mais assertivas ao longo do ciclo produtivo.

Entre os principais sinais de alerta, destacam-se a queda acelerada da população da colmeia, a redução da postura e falhas de cria, a presença de abelhas com asas deformadas, a mortalidade na entrada da colmeia e indícios de deterioração nos favos, como larvas, túneis ou início de fermentação do mel. A observação sistemática desses indicadores é fundamental para direcionar intervenções de forma mais precisa.

Para reduzir perdas, práticas de manejo têm sido adotadas com foco na estabilidade das colônias ao longo do ano, incluindo a manutenção de padrões adequados de população e reservas, a renovação de rainhas, o controle sanitário e o cuidado na origem de enxames e materiais. Essas medidas contribuem para diminuir a introdução e a disseminação de patógenos e aumentar a resiliência dos apiários.

A integração com a agricultura também é um componente central desse processo, envolvendo o planejamento do posicionamento de apiários, a comunicação prévia sobre pulverizações, o respeito a distâncias seguras e a priorização de locais com barreiras naturais, além da consideração das culturas no entorno. Esse alinhamento permite reduzir riscos associados às aplicações e melhorar as condições de oferta de alimento e abrigo para as abelhas. O principal desafio é viabilizar esse planejamento e o acompanhamento com inspeções periódicas sem que o custo operacional comprometa a rentabilidade da atividade.

Como incentivo à adoção de boas práticas, iniciativas de cooperação têm contribuído para reduzir conflitos e aumentar a previsibilidade no campo. Um exemplo é o Colmeia Viva (Sindiveg), que reúne protocolos de prevenção e resposta a incidentes, capacitações e ferramentas de comunicação (como o Colmeia Viva APP) para aproximar agricultores, aplicadores e criadores de abelhas.

No Brasil, também se observam mecanismos de incentivo vinculados à adoção de boas práticas. A remuneração por serviços de polinização, associada a critérios de sanidade e qualidade das colmeias, já está presente em diferentes contextos produtivos, assim como instrumentos de mercado que valorizam produtores que adotam práticas favoráveis aos polinizadores. A valorização de produtos com rastreabilidade e padrão sanitário tem avançado em toda a cadeia, contribuindo para reduzir perdas e ampliar o acesso a mercados.

Em conjunto, essas ações exigem coordenação entre agricultores, apicultores, assistência técnica, pesquisa e setor privado e representam uma decisão técnica e econômica para elevar produtividade e competitividade no agronegócio brasileiro, conciliando produção e conservação.

Proteger polinizadores não é apenas uma resposta a uma crise ambiental, mas uma estratégia para fortalecer sistemas produtivos mais eficientes, resilientes e alinhados às exigências de mercado.

REFERÊNCIAS

Australian Government. Honey bee and pollination continuity strategy. Disponível em: https://www.agriculture.gov.au/biosecurity-trade/pests-diseases-weeds/bees/honey-bee-pollination-continuity-strategy. Acesso em: 01 mar. 2026.

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Polinizadores e Agricultura Brasileira. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1111234/polinizadores-e-agricultura-brasileira. Acesso em: 19 mar. 2026

European Commission. EU Pollinators Initiative. Disponível em: https://ec.europa.eu/environment/nature/conservation/species/pollinators/index_en.htm. Acesso em: 06 mar. 2026.

Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO). The Importance of Pollinators in Agriculture. Disponível em: http://www.fao.org/pollination/en/. Acesso em: 09 mar. 2026.

Government of Canada (Health Canada). Pollinator protection. Disponível em: https://www.canada.ca/en/health-canada/services/consumer-product-safety/pesticides-pest-management/growers-commercial-users/pollinator-protection.html. Acesso em: 01 mar. 2026.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Produção Agrícola Municipal. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/agricultura-e-pecuaria/9107-producao-agricola-municipal.html. Acesso em: 12 mar. 2026.

Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). Colmeia Viva oferece treinamento gratuito a produtores rurais. Disponível em: https://sindiveg.org.br/ultimas-noticias/colmeia-viva-oferece-treinamento-gratuito-a-produtores-rurais/. Acesso em: 02 abr. 2026.

U.S. Department of Agriculture. National Pollinator Health Strategy. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/s3.documentcloud.org/documents/2083589/national-strategy-to-promote-the-health-of-honey.pdf. Acesso em: 09 mar. 2026.

*Heber Luiz Pereira é Zootecnista e fundados da HP Agroconsultoria