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1 de julho de 2026 - 14:40h

A Folha Agrícola

ARTIGO: Setor da erva-mate enfrenta pressão de preços e custos, e Embrapa defende eficiência e diversificação

Ivar Wendling e José Mauro Moreira, pesquisadores da Embrapa Florestas

Ives Goulart, analista da Embrapa Florestas

O setor da erva-mate, tradicional no Sul do país, atravessa um período de forte pressão econômica. A combinação entre queda nos preços pagos ao produtor, aumento dos custos de produção em algumas regiões e expansão da oferta colocou parte da cadeia produtiva em alerta. Diante desse cenário, a saída para o setor passa menos pela tentativa de controlar preços e mais pela busca de eficiência produtiva, diversificação de renda e abertura de novos mercados.

Após uma forte elevação nos preços nominais no início da pandemia, os preços têm apresentado tendência de queda no seu valor nominal, tanto da erva-mate em pé quanto na entregue para a indústria. A diferença de preço entre estas duas formas de comercialização tem se mantido relativamente constante no Paraná, refletindo a constância dos custos de colheita, comercialização e transporte da atividade.

Mas toda a redução de preço tem sido repassada ao produtor e, como o preço pago ao produtor é menor, o resultado é uma queda percentual mais acentuada no preço da erva-mate em pé do que aquela entregue na indústria. Em 2022 o preço pago na indústria era de aproximadamente R$ 22,00 por arroba (@), e o em pé, R$ 17,00/@, sendo a diferença atribuída aos custos de colheita, comercialização e transporte (R$ 5,00/@).

Em 2026, o preço na indústria foi de R$ 17,50/@ aproximadamente, e em pé, R$ 12,50. A diferença entre os dois permaneceu em torno de R$ 5,00/@, mas a redução percentual do preço na indústria foi 20%, e no preço em pé, 26,5%. Ou seja, a queda de preço na indústria foi totalmente repassada em termos absolutos para o produtor, já que os custos de colheita, comercialização e transporte permaneceram os mesmos, mas como o nível de preço do produtor é menor, a perda percentual do mesmo é maior. Já o Rio Grande do Sul apresenta preços médios nominais da erva-mate entregue na indústria inferiores aos praticados no Paraná, o que tem influenciado na percepção sobre a viabilidade do setor.

Atualmente, os preços da arroba da erva-mate apresentam forte variação regional. No Rio Grande do Sul, produtores relatam valores entre R$ 16,50 a R$ 17,00/@ entregue na indústria, enquanto em São Mateus do Sul (PR) os preços permanecem em patamares mais elevados, entre R$ 18 e R$ 20. A retração é atribuída principalmente ao aumento da oferta, impulsionada pela entrada em produção de novos ervais implantados nos últimos anos, além de sinais de desaceleração no consumo.

A redução de R$ 22,50/@ (em 2021/22) para os R$ 17,50 representa uma diminuição de mais de 22% na receita bruta, sem redução equivalente nos custos de produção. Em tese, esta queda é descontada quase que totalmente da margem do produtor. Em um plantio com elevada produtividade e rentabilidade positiva, com custos de adubação elevados devido ao preço dos fertilizantes, um decréscimo de 5% no preço neste cenário já é suficiente para comprometer a rentabilidade da cultura, e uma redução de 20% no preço compromete a capacidade de remunerar o custo da terra e o capital investido, podendo, inclusive, não gerar renda suficiente para que o produtor mantenha os tratos culturais dos ervais em um elevado nível tecnológico. 

Entretanto, um erval bem manejado, com alta produtividade, permite que o produtor ajuste os custos com tratos culturais nos momentos de baixa, reduzindo o impacto da redução dos preços na margem econômica da atividade sem uma perda acentuada na produtividade no curto prazo. Em ervais com baixa produtividade, que normalmente operam com margem reduzida ou negativa (muitos não conseguem remunerar os custos de oportunidade da terra e do capital próprio investido), a opção de ajuste no nível de manejo é bastante escassa, uma vez que os custos e a produtividade já estão em níveis reduzidos.

Ao mesmo tempo, os custos de produção cresceram significativamente. Fertilizantes tiveram alta após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia e não retornaram aos níveis anteriores. Os gastos com colheita e transporte também aumentaram de forma expressiva, tanto pelo aumento do preço dos combustíveis quanto pela mão de obra. O custo destas operações passou de R$ 460 por tonelada (R$ 6,90/@), em 2020, para R$ 820 (R$ 12,30 /@) em 2026, representando um aumento de 78,3% frente a uma inflação de 39,6% no mesmo período, chegando a impactar em mais de 50% nos custos de produção. 

A situação afeta especialmente os produtores que comercializam a erva “no pé”, pois o valor recebido já incorpora descontos referentes à colheita e ao transporte. Com isso, a redução da rentabilidade acaba sendo ainda mais intensa.

Nesse contexto, uma das principais discussões dentro da cadeia produtiva envolve a relação entre produtividade e excesso de oferta. Alguns especulam que o incentivo ao aumento da produtividade agrave a crise ao ampliar ainda mais a disponibilidade de matéria-prima e pressionar os preços para baixo.

Mas, nossa avaliação segue noutra direção: ganhos de produtividade são fundamentais para a sobrevivência econômica individual do produtor, especialmente em períodos de baixa. A lógica é que sistemas mais eficientes conseguem reduzir o custo médio de produção e manter margem positiva mesmo em cenários adversos.

O aumento de produtividade acontece pelo aumento de eficiência e ganhos em escala, que podem contribuir para a redução do custo de produção dentro da porteira. Também abre espaço para contratação de serviços com custos médios mais baixos, aumentando os volumes de contrato e reduzindo custos de transação. Mas para que os produtores possam continuar participando do mercado com estes novos patamares de produção, a busca por novos mercados e o desenvolvimento de outros produtos de erva-mate são fundamentais. Segundo essa linha, preços mais competitivos ao consumidor final também poderiam estimular a ampliação do mercado e abrir espaço para novos usos industriais da erva-mate, além dos tradicionais chimarrão, chá mate e tereré.

Outro ponto importante é a diferença entre produtores tecnificados e aqueles que entram na atividade apenas em momentos de valorização da cultura. Produtores mais estruturados conseguem administrar melhor períodos de crise, reduzindo temporariamente gastos com manejo sem comprometer drasticamente a produção futura. Ressalta-se, aqui, a combinação entre tecnificação e gestão andando juntos.

Já produtores considerados “aventureiros”, atraídos apenas pelos ciclos de alta, tendem a abandonar a atividade quando os preços recuam. Isso é observado em outras atividades agropecuárias, como suinocultura, fumicultura e avicultura. Movimentação similar acontece no setor ervateiro.

A gestão econômica do erval também é central. Ferramentas de análise financeira, como aplicativos de planejamento econômico desenvolvidos pela Embrapa para a cadeia da erva-mate, devem ser utilizadas para avaliar se a manutenção da atividade continua viável, se é possível reduzir custos de produção ou se o produtor deve substituir a cultura. As decisões devem sempre ser baseadas em planejamento, estudos e análises.

Além da eficiência produtiva, a diversificação também é uma estratégia para reduzir riscos. Uma das alternativas é a adoção de sistemas integrados, como o cultivo consorciado de erva-mate com araucária, espécies frutíferas e florestais. A proposta é diluir riscos econômicos, ampliar fontes de renda e agregar valor ambiental à produção. O resultado da propriedade como um todo é fundamental.

Também é necessário investir em qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade para ampliar a presença da erva-mate brasileira no mercado externo e em segmentos de maior valor agregado. O potencial ambiental da cultura, incluindo serviços ecossistêmicos e armazenamento de carbono, além de ferramentas voltadas à mensuração das emissões e estoques de carbono nos sistemas produtivos, podem ser destaques da cadeia produtiva na agregação de valor.

As discussões do setor ainda revelam pontos de tensão, como a interpretação dos dados de produção. No entanto, é importante alertar que o uso do termo “supersafra” para descrever o momento atual é equivocado. O aumento recente da oferta está ligado mais à recuperação dos ervais após períodos de seca no Brasil e na Argentina e à entrada de matéria prima dos plantios pré-pandemia do que propriamente a um salto tecnológico de produtividade. Esta vem crescendo em um ritmo lento, após anos de queda.

Certamente um dos pontos de tensão atuais é a distribuição das margens de lucro ao longo da cadeia produtiva. Enquanto empresas atribuem a crise a fatores macroeconômicos e ao aumento dos custos operacionais, produtores levantam dúvidas sobre um possível crescimento das margens industriais em detrimento do valor pago no campo.

Vale destacar que a erva-mate é uma cultura perene de longo prazo. Assim, são esperadas oscilações ao longo do tempo, mas a recuperação do capital investido na formação do erval ocorre pouco a pouco a cada safra. Desta forma, o planejamento da atividade no curto, médio e longo prazos é fundamental para que o produtor possa traçar estratégias de produção que alinhem bons ganhos em momentos de alta de preço e equalização das contas nos momentos mais adversos, possibilitando a boa saúde financeira e produtiva do empreendimento ao longo do seu ciclo produtivo.

Apesar do cenário adverso, a erva-mate continua sendo uma atividade estratégica econômica, ambiental e culturalmente para a região Sul. A orientação, porém, é que o setor avance para modelos mais eficientes, diversificados e voltados à agregação de valor, reduzindo a dependência exclusiva das oscilações do mercado tradicional.

Cabe ressaltar e chamar a atenção para o fato de que a erva-mate tem um grande potencial para aumento de demanda no Brasil e no mundo, com produção sustentável e uma significativa quantidade de compostos bioativos para utilização em diversos produtos em diversas áreas. O interesse internacional pela erva-mate tem se intensificado nos últimos anos. No Brasil, entretanto, existem caminhos ainda a serem trilhados, como a atração do interesse de novos tipos de indústrias para esta matéria prima, utilização de estratégias mais agressivas e contínuas de marketing, sobretudo em regiões não consumidoras, maior organização do setor e atuação em parceria. 

Por outro lado, já são percebidos os primeiros indícios de que a curva de retorno pode estar se invertendo nos próximos anos e, neste sentido, tem-se a expectativa de que é um bom momento para quem quer investir na cultura, desde que com planejamento, adoção de tecnologias, fugindo de estratégias aventureiras. Nem toda melhoria tecnológica tem custo, mas pode impactar altamente na produção. Por isso, produtores também devem se preparar para um novo ciclo de alta buscando ajustes de baixo custo com bom efeito na produção.

Ciência e tecnologia no cultivo de erva-mate

No contexto de apoio a melhorias na qualidade e produtividade, instituições de pesquisa e universidades têm trabalhado com a erva-mate, fornecendo aos produtores rurais tecnologias para auxiliar no seu dia a dia. Pela Embrapa Florestas, ressaltamos:

  • Cultivares clonais de alta produtividade e qualidade padronizada 
  • Tecnologias para produção de mudas de qualidade
  • Sistema de produção Erva 20, para aumento de produtividade e qualidade dos ervais, com estratégias de manejo adequadas
  • Novos sistemas de produção
  • Novos produtos buscando agregação de valor e alcance de novos mercados
  • Manejo Matte: sistema para diagnóstico e avaliação da qualidade do erval
  • Ferti Matte: sistema de apoio para nutrição do erval
  • Planin Mate: sistema para análise econômica de ervais
  • Carbon Matte: calculadora de carbono em erva-mate

Importância econômica da erva-mate

A erva-mate ocupa a 2ª posição no ranking dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) em valor de produção da extração vegetal no Brasil e, em terceiro, se considerarmos a produção agrícola. Na extração vegetal ela fica atrás apenas do açaí (42,2% do VBP em 2024), com 21,6% do VBP em 2024, e se consolida como o principal produto não madeireiro do agronegócio florestal da Região Sul. Considerando os plantios agrícolas, a erva-mate ocupa a 3ª posição entre os produtos florestais não madeireiros, perdendo apenas para o açaí (67,6% do VBP) e a borracha (14,11% do VBP), com uma participação no valor da produção de 2024.

Embrapa Florestas Foto: Katia Pichelli