Por que o Brasil ainda não reconheceu a mobilidade rural como uma agenda estratégica de Estado.
“Mobilidade rural não é apenas infraestrutura. É acesso à educação, à saúde, à produção e à presença do Estado onde as pessoas vivem.”
O Brasil fala de infraestrutura. Mas esqueceu da mobilidade rural.
As eleições se aproximam e os planos de governo voltam ao debate. Fala-se sobre economia, agronegócio, infraestrutura, mudanças climáticas e desenvolvimento regional. Mas uma pergunta continua praticamente ausente: quem vai falar de mobilidade rural?
O Brasil depende diariamente do meio rural para produzir alimentos, gerar riquezas e movimentar sua economia. Mesmo assim, a mobilidade rural ainda não foi reconhecida como uma agenda estratégica de Estado, capaz de integrar infraestrutura, desenvolvimento regional, logística, adaptação climática e gestão de riscos.
Mobilidade rural é falar sobre pessoas.
Quando falamos em mobilidade rural, não estamos falando apenas de estradas. Estamos falando da criança que depende do transporte escolar para chegar à escola. Da gestante que precisa acessar um hospital. Do agricultor que produz os alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Das equipes de saúde, da Defesa Civil e de todos os serviços públicos que precisam chegar aonde as pessoas vivem.
Quando a mobilidade falha, comunidades inteiras deixam de avançar.
Quando a estrada desaparece, o Estado desaparece junto.
Ao coordenar a operação técnica na área rural após o tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu (PR), ficou claro que o maior desafio não era apenas avaliar os danos. O verdadeiro desafio era chegar até as pessoas.
A resposta exigiu construir informações sobre o território praticamente em tempo real, integrar diferentes instituições e organizar uma operação técnica capaz de atender centenas de propriedades rurais distribuídas por uma extensa área atingida.
Naquele momento, ficou claro que mobilidade rural não representa apenas infraestrutura. Ela representa a capacidade do Estado de estar presente quando a população mais precisa.
Você sabe o que é o IBMR?
Ele ainda não existe.
O Brasil ainda não possui um Índice Brasileiro de Mobilidade Rural (IBMR), nem uma metodologia nacional capaz de orientar o planejamento da mobilidade rural de forma integrada. Sem conhecer a realidade da malha viária rural, torna-se impossível estabelecer prioridades, planejar investimentos de longo prazo, direcionar tecnologias adequadas para cada realidade e monitorar os resultados das políticas públicas.
Mais do que um indicador, o IBMR é um instrumento técnico concebido para apoiar uma política nacional de mobilidade rural, estruturada em cinco pilares: conhecer a malha, definir prioridades, promover o planejamento de Estado, orientar a adoção de tecnologias e soluções adequadas, e monitorar continuamente os resultados.

Programa Nacional de Mobilidade Rural — Índice Brasileiro de Mobilidade Rural (IBMR)
A pergunta que ainda não entrou na agenda do país.
O debate não é apenas sobre construir ou pavimentar estradas. É sobre garantir acesso à educação, à saúde, à produção, aos serviços públicos e à resposta em situações de emergências. É sobre enxergar a mobilidade rural como um dos pilares do desenvolvimento nacional.
Porque, antes de discutir novas obras ou anunciar novos programas, o Brasil precisa responder uma pergunta simples, mas inevitável:
Quem vai falar de mobilidade rural?

Sobre a autora
Tatiane Pezente é engenheira civil e atua à frente da TP Agro Engenharia, desenvolvendo tecnologias para infraestrutura de vicinais rurais.
Contato e informações adicionais: [tatiane_cp@hotmail.com / (46) 9911