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10 de agosto de 2026 - 10:29h

A Folha Agrícola

O produtor rural realmente precisa de um testamento?

O recorde de testamentos registrados em 2025 revela uma mudança importante. Mas, antes de decidir se precisa de um testamento, talvez o produtor rural deva responder outra pergunta.

Em 2025, o país registrou o maior número de testamentos de sua história[1]. À primeira vista, esse pode parecer apenas mais um dado estatístico, mas ele revela uma mudança silenciosa. Cada vez mais brasileiros têm deixado de tratar a sucessão como um assunto para “quando chegar a hora” e passaram a enxergá-la como uma decisão que pode – e, na minha opinião, deve –, ser tomada em vida.

No meio rural, essa preocupação também tem crescido. Afinal, para quem passou décadas formando uma propriedade rural, é natural querer evitar que a família enfrente conflitos justamente quando mais precisará de união. Mas, apesar de ser uma pergunta muito comum, “eu preciso fazer um testamento?”, provavelmente não é a primeira pergunta que o produtor rural deveria fazer.

A pergunta mais importante costuma ser outra: o que exatamente eu quero resolver?

Parece uma diferença pequena, mas ela muda completamente a conversa. Há produtores que desejam proteger o cônjuge sobrevivente. Outros querem beneficiar um filho dentro dos limites permitidos pela lei. Alguns pretendem registrar vontades pessoais que gostariam de ver respeitadas após a morte. Também existem aqueles cuja maior preocupação é evitar desentendimentos entre os herdeiros.

Perceba que todas essas situações são diferentes entre si, e, justamente por isso, nem sempre terão a mesma solução. É nesse ponto que surge um dos maiores equívocos sobre o tema. Muitas pessoas enxergam o testamento como uma espécie de resposta pronta para qualquer problema sucessório. Como se bastasse lavrar um documento para que todas as dificuldades desaparecessem.

Não é assim.

O testamento é um instrumento extremamente importante e, em muitas famílias, pode cumprir um papel decisivo. Mas ele possui uma finalidade própria e limites definidos pela legislação. Dependendo do objetivo pretendido, poderá ser suficiente. Em outras situações, será apenas uma das ferramentas que poderão compor um planejamento sucessório mais amplo.

É justamente por isso que a notícia sobre o recorde de testamentos merece uma leitura um pouco diferente. O dado não significa apenas que mais brasileiros estão fazendo testamentos. Significa que mais famílias começaram a conversar sobre sucessão enquanto ainda podem decidir juntas, com tranquilidade e sem a pressão que normalmente acompanha a perda de um ente querido.

Talvez esse seja o verdadeiro avanço. Durante muito tempo, falar sobre herança foi visto como um assunto desconfortável, quase um presságio. Hoje, aos poucos, cresce a compreensão de que organizar o patrimônio em vida não representa falta de esperança. Representa responsabilidade com quem ficará.

No campo, essa conversa costuma ser ainda mais importante. A propriedade frequentemente carrega muito mais do que valor econômico. Ela reúne a história da família, anos de trabalho, decisões difíceis, conquistas e o desejo de que tudo isso continue beneficiando as próximas gerações.

Por isso, antes de perguntar se é necessário fazer um testamento, vale a pena responder outra questão: como eu quero que minha família fique quando eu não estiver mais aqui?

A resposta dificilmente será igual para todos os produtores. Cada família possui sua própria história, sua dinâmica e seus desafios. E é exatamente por isso que o planejamento sucessório não começa com um documento. Ele começa com as perguntas certas.

Se o resultado desse diálogo indicar que o testamento é o instrumento mais adequado, excelente. Se indicar a necessidade de outras medidas, elas poderão ser avaliadas no momento oportuno.

O importante é compreender que a melhor solução não é aquela que serve para todas as famílias. É aquela que resolve o problema da sua.

Marcos Vinícius Souza de Oliveira (@marcosdeoliveira.adv)

Mestrando em Direito do Agronegócio. Especialista em Direito Contratual e Sucessório. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Advogado no escritório Álvaro Santos Sociedade de Advogados com atuação focada na defesa de produtores rurais.


[1] Foram 38.740 testamentos registrados em 2025, um crescimento de cerca de 21% nos últimos cinco anos. <https://www.notariado.org.br/brasil-bate-recorde-de-testamentos-em-2025-e-expoe-nova-tendencia-no-planejamento-sucessorio/>

Document

Cotações Agrícola

Milho

R$ 69,02

Soja

R$ 133,99

Trigo

R$ 79,61

Feijão

R$ 143,36

Boi

R$ 306,40

Suíno

R$ 7,88

Leite

R$ 2,74

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