A Diarreia Viral Bovina (BVD) é uma enfermidade de grande importância para a pecuária, com impactos diretos sobre a sanidade, a reprodução e a produtividade dos rebanhos leiteiros e de corte. Causada por um vírus do gênero Pestivirus, pertencente à família Flaviviridae, a doença apresenta ampla distribuição e pode se manifestar de diferentes formas, incluindo quadros graves como a Doença das Mucosas.
Apesar do nome, os efeitos da BVD não se limitam à ocorrência de diarreia ou às alterações do trato gastrointestinal. A infecção também está associada a comprometimento respiratório, imunossupressão e falhas reprodutivas, como repetição de cio, abortos, natimortalidade, malformações congênitas e nascimento de bezerros persistentemente infectados (PI).
A presença dos animais PI merece atenção especial, pois eles podem eliminar o vírus continuamente e contribuir para sua disseminação no rebanho. Por isso, compreender como a BVD é transmitida, quais são suas principais manifestações e como realizar seu diagnóstico, controle e prevenção é fundamental para reduzir os impactos da doença nos sistemas de produção.
O que é a Diarreia Viral Bovina (BVD)?
Para compreender por que a BVD pode se manifestar de formas tão distintas no rebanho, é importante observar algumas características do vírus. O BVDV possui material genético constituído por RNA de fita simples e polaridade positiva, além de apresentar elevada variabilidade antigênica, característica que contribui para a diversidade entre as cepas circulantes.
Com base em características genéticas e antigênicas, o BVDV pode ser dividido em dois genótipos, BVDV-1 e BVDV-2, ambos já identificados no Brasil. Essa diferenciação possui importância prática, pois interfere na resposta imune e deve ser considerada nos métodos diagnósticos e nas estratégias de controle da infecção.
Além da classificação genética, o vírus também apresenta cepas citopáticas e não citopáticas. As cepas citopáticas estão relacionadas à ocorrência da Doença das Mucosas, enquanto as não citopáticas estão associadas às manifestações clássicas da BVD, incluindo alterações reprodutivas e o nascimento de animais persistentemente infectados.
Essa diversidade contribui para a ampla variabilidade clínica da BVD e para a complexidade do seu controle
Como a BVD é transmitida?
A transmissão do BVDV pode ocorrer de forma horizontal ou vertical, e essa diferença é fundamental para compreender como o vírus se mantém dentro do rebanho.
Na transmissão horizontal, o animal entra em contato com partículas virais por meio da ingestão, inalação ou via sexual. Após penetrar no organismo, o vírus se replica inicialmente nas células epiteliais e no tecido linfóide da boca e da faringe, podendo depois se disseminar para outras regiões, como vias respiratórias, glândulas salivares e linfonodos. Os animais infectados eliminam o vírus principalmente por secreções nasais, saliva e urina, favorecendo a contaminação de outros bovinos.
Embora a transmissão horizontal clássica ocorra por secreções, touros jovens infectados durante a puberdade podem desenvolver uma condição intrigante: o vírus pode se alojar de forma persistente apenas nos testículos, protegido pela barreira hematotesticular contra o sistema imune do próprio animal. Esse touro (que não é um PI) testará negativo nos exames de sangue tradicionais, mas eliminará o vírus continuamente no sêmen por anos, tornando-se uma fonte silenciosa de contaminação em programas de inseminação ou monta natural.
Já a transmissão vertical ocorre quando o vírus atravessa a placenta e infecta o feto durante a gestação. Esse mecanismo tem grande importância na epidemiologia da BVD, pois pode levar ao nascimento de animais persistentemente infectados, que passam a exercer papel central na manutenção e disseminação do vírus no rebanho.
Animais persistentemente infectados (PI): qual a sua importância na BVD?
Os animais persistentemente infectados (PI) desempenham papel central na manutenção do BVDV no rebanho. Sua origem está relacionada à infecção fetal entre 40 e 120 dias de gestação, período em que o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Nessa fase, o feto pode tornar-se imunotolerante ao vírus e, caso sobreviva à gestação, nascer persistentemente infectado.
Esses animais passam a eliminar o vírus continuamente e em grandes quantidades ao longo da vida, favorecendo sua disseminação entre os demais bovinos e contribuindo para a manutenção da infecção na propriedade.
Por essa razão, a presença de animais PI representa um importante desafio sanitário, e sua identificação e remoção do rebanho são fundamentais para as estratégias de controle da BVD.
Quais são os sinais clínicos da BVD?
As manifestações clínicas da Diarreia Viral Bovina podem variar em apresentação e gravidade. Entre os quadros mais severos está a Doença das Mucosas, que, em sua forma aguda, pode evoluir rapidamente e levar o animal ao óbito.
Nesse quadro, as principais lesões acometem o trato gastrointestinal e respiratório superior. Podem ocorrer úlceras erosivas e hemorrágicas no focinho, boca, gengivas, lábios, língua e esôfago, com possibilidade de evolução para áreas de necrose. Lesões também podem ser observadas na vulva, nos tetos e entre os cascos. Clinicamente, os animais podem apresentar febre, apatia, perda de apetite, desidratação, hipersalivação, corrimento nasal, tosse e diarreia, inclusive com presença de sangue.
Outro aspecto importante da infecção aguda é a imunossupressão transitória, que aumenta a vulnerabilidade dos bovinos a infecções secundárias, especialmente entéricas e respiratórias. Dessa forma, a ação do BVDV pode contribuir para o agravamento do quadro sanitário do animal.
A imunossupressão induzida pelo BVDV ocorre principalmente devido à replicação viral em linfócitos T e B e macrófagos, mediada pelo receptor celular CD46. Esse processo culmina na apoptose celular via ativação da caspase-9 em órgãos linfoides essenciais, como o timo e as placas de Peyer. Clinicamente, esse estado imunodepressivo atua como um facilitador sinérgico para outros patógenos.
No trato respiratório, o BVDV reduz a capacidade do hospedeiro de conter infecções secundárias, apresentando um sinergismo devastador com a bactéria Mannheimia (Pasteurella) haemolytica, o que agrava drasticamente os quadros de pneumonia e a ocorrência de “febre dos transportes” (shipping fever). Além disso, no âmbito reprodutivo, a co-infecção do BVDV com o protozoário Neospora caninum tem sido frequentemente associada a surtos severos de abortamento em rebanhos leiteiros.
Além da conhecida Doença das Mucosas, cepas altamente virulentas do genótipo BVDV-2 podem causar uma manifestação aguda grave em animais de qualquer idade chamada Síndrome Hemorrágica. O vírus provoca uma queda severa no número de plaquetas (trombocitopenia), levando a sangramentos espontâneos pelo nariz (epistaxe), fezes com sangue vivo, hemorragias na boca e olhos, e sangramento prolongado em feridas ou locais de aplicação de vacinas e medicamentos.
Já na forma crônica da Doença das Mucosas, podem ser observados corrimento nasal e ocular persistente, perda de apetite e de peso, diarreia contínua, laminite, alterações na pelagem e úlceras, principalmente nas regiões oral, perianal e vulvar.
Quais são os impactos da BVD na reprodução?
Além das manifestações clínicas, a Diarreia Viral Bovina pode comprometer significativamente a eficiência reprodutiva do rebanho. As consequências da infecção variam de acordo com o estágio da gestação em que ocorre o contato com o vírus.
Entre as alterações descritas estão redução das taxas de concepção, repetição de cio, abortos, mumificação fetal, natimortalidade e malformações congênitas. A infecção também pode resultar em alterações neurológicas e do desenvolvimento, como microcefalia, hipoplasia ou aplasia cerebelar, incoordenação motora, catarata, atrofia da retina, cegueira e comprometimento do desenvolvimento muscular.
Somado a esses desfechos, o nascimento de bezerros persistentemente infectados, abordado anteriormente, reforça a importância da BVD para a saúde reprodutiva e para o controle sanitário do rebanho. Assim, a doença deve ser considerada não apenas diante de manifestações clínicas, mas também na investigação de problemas reprodutivos na propriedade.
Como é feito o diagnóstico da BVD?
Diante da diversidade de manifestações da Diarreia Viral Bovina, a confirmação da infecção depende do diagnóstico laboratorial. Para isso, podem ser utilizadas diferentes amostras, como sangue, leite, fezes, placenta e fetos abortados, de acordo com a situação investigada.
Em casos submetidos à necropsia, algumas alterações também podem contribuir para a investigação da doença. Entre os achados descritos estão lesões no trato digestivo, como úlceras no esôfago, rúmen, omaso e abomaso, além de necrose das placas de Peyer. Alterações associadas à infecção transplacentária também podem ser observadas.
A confirmação laboratorial pode ser realizada por métodos como isolamento viral, imuno-histoquímica, ELISA e PCR. Entre eles, o PCR é amplamente utilizado para a detecção do BVDV em rebanhos leiteiros devido à sua elevada sensibilidade.
Para a detecção de animais PI no rebanho, o exame de PCR em amostras de leite de tanque ou soro sanguíneo em pool (mistura de amostras de vários animais) é uma ferramenta excelente e de baixo custo para triagem inicial. Caso o resultado do grupo seja positivo, o passo seguinte consiste em testar os animais individualmente utilizando o teste de ELISA de captura de antígeno (Erns) em amostras de soro ou através do teste de imunohistoquímica em pequenos fragmentos de pele (biópsia de orelha/brinco), permitindo a identificação exata e eliminação do animal persistente.
Mais do que confirmar a presença do vírus, o diagnóstico tem papel importante na definição das medidas sanitárias adotadas na propriedade, especialmente por contribuir para a identificação dos animais persistentemente infectados (PI), fundamentais para a estratégia de controle da BVD
Como controlar e prevenir a BVD no rebanho?
Como não existe tratamento específico para a Diarreia Viral Bovina, o controle da doença depende da adoção conjunta de medidas capazes de reduzir a circulação do vírus no rebanho. Entre as principais estratégias estão a vacinação, a identificação e remoção dos animais persistentemente infectados (PI) e o fortalecimento das medidas de biosseguridade.
A vacinação desempenha papel importante na prevenção da BVD, contribuindo para a proteção do rebanho e para a redução da transmissão transplacentária. As vacinas disponíveis no mercado geralmente incluem antígenos de outros agentes relacionados a enfermidades respiratórias e reprodutivas, como IBR e Parainfluenza-3. A escolha deve considerar aspectos como composição, associação com outros agentes, custo e protocolo de aplicação.
Entretanto, a vacinação não deve ser utilizada como única estratégia de controle. A identificação e remoção dos animais PI são essenciais para diminuir a disseminação do BVDV na propriedade. Em rebanhos com histórico positivo para a doença,
As medidas de biosseguridade complementam esse controle, especialmente por reduzirem o risco de introdução do vírus no rebanho. Entre elas estão a testagem dos animais antes da entrada na propriedade, a quarentena e o controle do trânsito de bovinos. Além disso, condições adequadas de nutrição, higiene, manejo e bem-estar contribuem para reduzir fatores de risco relacionados à doença.
Dessa forma, o controle da BVD deve ser entendido como uma estratégia sanitária integrada, na qual vacinação, diagnóstico e biosseguridade atuam de maneira complementar para reduzir a manutenção e a disseminação do vírus no rebanho
Conclusão
A Diarreia Viral Bovina (BVD) representa um importante desafio sanitário devido à diversidade de manifestações clínicas, aos impactos reprodutivos e à capacidade de manutenção do vírus dentro do rebanho.
Entre os principais pontos de atenção estão os animais persistentemente infectados (PI), que favorecem a disseminação do BVDV e tornam o controle da doença dependente de medidas integradas. Por isso, vacinação, diagnóstico, remoção de PI e biosseguridade devem atuar de forma complementar.
A adoção dessas estratégias contribui para reduzir perdas produtivas e reprodutivas e para fortalecer a sanidade do rebanho, tornando o controle da BVD parte essencial do planejamento sanitário da propriedade.
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Artigo escrito por Débora Avelar e Bruna Maeda Equipe Leite Rehagro
Referências
- Importance of Viral Disease in Dairy Cow Fertility – PMC. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7104734/