A incidência da ferrugem asiática da soja aumentou 277% em áreas monitoradas no Paraná e em São Paulo, acendendo um alerta para os produtores que estão iniciando a safra 2026/27. O cenário preocupa pesquisadores diante da possibilidade de chuvas mais frequentes e períodos prolongados de umidade, condições que favorecem o desenvolvimento da doença.
O levantamento da Fundação ABC, instituição de pesquisa mantida pelas cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal, identificou que a presença do fungo passou de 12,5% em setembro de 2025 para 47,2% em setembro de 2026 nas áreas avaliadas. O aumento representa 34,7 pontos percentuais em apenas um ano.
Segundo o pesquisador Giovanni Kochinski, a ocorrência de geadas fracas durante o período de vazio sanitário pode ter contribuído para a sobrevivência de plantas voluntárias de soja, conhecidas como soja guaxa. Essas plantas servem de hospedeiras para o fungo e ajudam a manter o inóculo entre uma safra e outra.
Além disso, as condições de temperatura, umidade e maior incidência de chuvas associadas ao El Niño criam um ambiente favorável ao desenvolvimento inicial da ferrugem, aumentando o risco de avanço precoce da doença nas lavouras.
Chuvas podem dificultar o controle da doença
Um dos principais desafios para a safra 2026/27 será manter o calendário de aplicação de fungicidas. Com períodos mais chuvosos, os produtores podem enfrentar dificuldades para entrar nas lavouras e realizar os tratamentos no momento adequado.
O intervalo entre as aplicações é fundamental para manter a proteção das plantas. Quando as condições climáticas impedem a pulverização na janela recomendada, a cultura pode ficar desprotegida e mais vulnerável à evolução da ferrugem asiática.
O pesquisador também destaca a importância de respeitar o intervalo necessário entre a aplicação do fungicida e a ocorrência da primeira chuva, que deve ser de pelo menos seis a oito horas, conforme a orientação apresentada para melhorar a eficácia do produto.
Produtores adotam estratégias preventivas
No Paraná, produtores já estão ajustando o planejamento para reduzir os riscos. Em Piraí do Sul, nos Campos Gerais, Geraldo Morsink cultiva aproximadamente 230 hectares de soja e aposta no monitoramento e no manejo preventivo para proteger a produtividade.
Segundo ele, os cuidados adotados em safras anteriores ajudaram a evitar perdas significativas, mesmo com a ocorrência da doença. Apesar da preocupação com o clima, o produtor afirma que não pretende economizar nos fungicidas, embora esteja reduzindo despesas com outros insumos e fertilizantes diante dos preços elevados.
Em Tibagi, o produtor Leendert de Geus também enfrenta dificuldades para avançar com o plantio de uma área de 700 hectares. Até o momento, havia conseguido semear 180 hectares, enquanto as chuvas dificultavam os trabalhos no campo.
Entre as medidas planejadas está a antecipação do plantio com cultivares de ciclo precoce, buscando reduzir a exposição da lavoura às chuvas mais intensas no final do ciclo. O produtor também considera o uso de drones para realizar aplicações de fungicidas e manter os intervalos de tratamento.
Monitoramento deve começar antes dos sintomas
O monitoramento da Fundação ABC, realizado entre 18 e 24 de setembro, identificou focos do patógeno com mais de 10% de severidade nas proximidades de Itaberá, Itapeva e Itaporanga, em São Paulo, e de Sengés, Carambeí, Imbituva e Teixeira Soares, no Paraná.
De acordo com Kochinski, a presença do fungo antes mesmo do estabelecimento das lavouras comerciais reforça a necessidade de iniciar o manejo preventivo desde o começo do ciclo, sem esperar pelo aparecimento dos primeiros sintomas.
A ferrugem asiática é uma das doenças mais importantes da cultura da soja e pode provocar perdas expressivas de produtividade quando não controlada adequadamente. Diante das condições climáticas previstas, o acompanhamento das lavouras, o planejamento das aplicações e a adoção de estratégias preventivas serão fundamentais para reduzir os riscos e preservar o potencial produtivo da safra 2026/27.