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19 de março de 2026 - 15:24h

A Folha Agrícola

Agro brasileiro sob pressão: logística incerta e fertilizantes em alerta

Mateus Vitoria Oliveira, CEO da Private Log

O agronegócio brasileiro representa aproximadamente 24% do PIB nacional e responde por quase metade das exportações do país nos últimos anos. Soja, milho, carnes e derivados sustentam o superávit da balança comercial e funcionam como estabilizadores macroeconômicos em momentos de desaceleração industrial. Essa robustez, no entanto, repousa sobre dois pilares muitas vezes subestimados: previsibilidade logística e estabilidade no fornecimento de insumos.

A instabilidade no Estreito de Ormuz, corredor por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial e um terço do comércio marítimo de gás natural liquefeito, tem capacidade de alterar rapidamente os custos globais de energia e transporte. Embora o Brasil não dependa diretamente dessa rota para exportar grãos, os efeitos indiretos são significativos. O frete marítimo é sensível ao preço do bunker, que pode representar até metade do custo operacional de uma embarcação. Movimentos abruptos no preço do Brent repercutem quase imediatamente nas tabelas de frete internacional.

Para o produtor brasileiro, que já enfrenta custos logísticos internos elevados, reflexo de uma matriz de transporte em que cerca de 65% da carga é escoada por rodovias, qualquer elevação adicional no frete internacional reduz margem e compromete competitividade. O Brasil disputa mercados com Estados Unidos e Argentina, que possuem cadeias logísticas mais integradas e, em muitos casos, custos internos menores. Pequenas variações no custo por tonelada podem redefinir contratos internacionais de grande escala.

Além do impacto direto sobre exportações, há uma vulnerabilidade estrutural ainda mais sensível: fertilizantes. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). No caso específico dos nitrogenados, como a ureia, a dependência externa é ainda maior. Parte relevante desse volume tem origem em países do Oriente Médio, cuja produção está vinculada ao custo e à disponibilidade de gás natural.

O gás natural é insumo básico na produção de fertilizantes nitrogenados. Quando há instabilidade geopolítica na região do Golfo, o preço do gás sobe, elevando o custo de produção global. Mesmo que não haja interrupção física no fluxo de mercadorias, o mercado precifica risco. O resultado é aumento imediato nas cotações internacionais da ureia e de outros insumos essenciais ao plantio.

Esse movimento tem implicações diretas na próxima safra. Fertilizantes representam parcela relevante do custo de produção agrícola, especialmente em culturas como soja e milho. Quando o preço da ureia sobe, o custo por hectare aumenta. O produtor, diante de margens pressionadas, pode reduzir aplicação ou buscar alternativas menos eficientes, o que impacta produtividade. Em ambos os casos, o efeito aparece no custo final do alimento.

O ciclo econômico é consistente. Energia mais cara eleva fertilizantes. Fertilizantes mais caros elevam o custo agrícola. O custo agrícola pressiona alimentos. Alimentos têm peso significativo nos índices de inflação. A inflação, por sua vez, influencia decisões de política monetária. Juros mais elevados encarecem crédito rural, reduzem investimentos em expansão de área e limitam capitalização tecnológica do produtor.

O impacto não se restringe ao campo. Ele se espalha pela indústria de máquinas agrícolas, pelo setor de insumos, pelo transporte e pelo varejo alimentar. O agronegócio brasileiro é altamente eficiente em produtividade por hectare, mas essa eficiência não elimina sua exposição à geopolítica energética.

Há ainda uma variável adicional: volatilidade cambial. Em cenários de tensão internacional, o dólar tende a se fortalecer globalmente, pressionando moedas emergentes. Como fertilizantes e insumos são cotados em dólar, a combinação de alta internacional de preço com desvalorização cambial amplifica o custo doméstico. O produtor brasileiro pode enfrentar dupla pressão: insumo mais caro em dólar e dólar mais caro em reais.

A resiliência histórica do agro brasileiro decorre de capacidade técnica e adaptação produtiva. No entanto, a crescente concentração global de insumos estratégicos exige resposta estrutural. A ampliação da produção nacional de fertilizantes, ainda incipiente frente à demanda interna, é parte dessa agenda. O Plano Nacional de Fertilizantes já reconhece essa vulnerabilidade e estabelece metas de redução da dependência externa nas próximas décadas. O desafio está na execução.

Paralelamente, estratégias privadas de gestão de risco tornam-se essenciais. Compra antecipada de insumos, contratos com travas de preço, hedge cambial estruturado e inteligência logística internacional deixam de ser diferenciais e passam a ser instrumentos de sobrevivência competitiva.

O agronegócio brasileiro consolidou-se como potência global pela combinação de tecnologia tropical, escala e empreendedorismo. Contudo, em um ambiente internacional marcado por gargalos energéticos e tensões geopolíticas, competitividade não é apenas produtividade. É segurança de suprimento, previsibilidade logística e gestão estratégica de risco.

O Brasil tem vocação para liderar o abastecimento alimentar global. Para sustentar essa posição, precisará transformar dependência externa em estratégia de autonomia produtiva. Em um mundo onde energia define custo e logística define margem, o agro continuará forte, desde que antecipe o risco antes que ele se materialize no campo.

Foto: Freepik