A tilapicultura brasileira enfrenta hoje uma ameaça que vai muito além da simples concorrência comercial. A importação de filé de tilápia do Vietnã traz riscos econômicos, sanitários e estratégicos para toda a cadeia produtiva nacional.
No aspecto econômico, é importante reconhecer que o produtor brasileiro não compete em igualdade de condições com o produtor vietnamita. Enquanto o Vietnã opera com forte apoio governamental, subsídios, custos reduzidos de produção e uma estrutura logística altamente competitiva, o Brasil convive com o chamado “Custo Brasil”: carga tributária elevada, energia cara, juros altos, dificuldades logísticas, burocracia ambiental e elevados custos com ração, licenciamento e transporte. Essa diferença torna praticamente impossível uma competição equilibrada, pressionando os preços pagos ao produtor brasileiro e colocando em risco milhares de empregos diretos e indiretos gerados pela cadeia aquícola nacional.
Além da questão econômica, existe uma preocupação ainda mais grave: o risco sanitário. O Vietnã registra ocorrência do vírus TiLV (Tilapia Lake Virus), conhecido como a “doença do lago”, uma enfermidade altamente contagiosa que afeta a tilapicultura mundial e que ainda não possui controle plenamente estabelecido. O Brasil é atualmente considerado livre dessa doença, e a eventual introdução desse patógeno poderia provocar impactos devastadores na produção nacional, comprometendo a segurança sanitária, a produtividade, os investimentos e a confiança do mercado consumidor.
O próprio Ministério da Agricultura e Pecuária chegou a suspender as importações de tilápia do Vietnã justamente para revisão dos protocolos sanitários relacionados ao risco de introdução do TiLV no país. A medida foi adotada em caráter preventivo, demonstrando que a preocupação sanitária não é especulação, mas sim uma questão técnica reconhecida oficialmente pelas autoridades brasileiras.
A preocupação do setor é legítima. Uma crise sanitária na aquicultura pode provocar prejuízos bilionários e efeitos duradouros, como ocorreu em outros países produtores de pescado. Basta observar experiências internacionais envolvendo enfermidades que afetaram cadeias produtivas inteiras, gerando mortalidade de peixes, queda de produção, fechamento de empresas e desemprego.
Também é necessário destacar que o filé brasileiro possui um padrão de produção reconhecido pela qualidade, rastreabilidade, controle sanitário e rigor ambiental. O produtor nacional opera sob normas ambientais, sanitárias e trabalhistas rigorosas, seguindo protocolos que garantem segurança alimentar e qualidade ao consumidor. Defender a produção brasileira não é defender protecionismo irresponsável, mas sim defender segurança sanitária, soberania alimentar, geração de empregos e equilíbrio competitivo.
O Brasil construiu uma das cadeias de tilapicultura mais modernas e eficientes do mundo. Fragilizar esse setor por meio de uma concorrência desequilibrada e de riscos sanitários ainda não plenamente mitigados pode comprometer anos de investimentos, inovação tecnológica e desenvolvimento regional. O debate precisa ser conduzido com responsabilidade, prudência e foco na proteção da produção nacional e da segurança aquícola brasileira. A Aquicultura brasileira vive um dos momentos mais delicados de sua história recente. De um lado, a crescente importação de filé de tilápia do Vietnã pressiona o mercado nacional, ameaça a competitividade do produtor brasileiro e coloca em risco milhares de empregos gerados ao longo de toda a cadeia produtiva. Do outro, a possível inclusão da tilápia e de outras espécies de interesse econômico e social na lista de espécies exóticas invasoras pelo CONABIO gera insegurança jurídica, instabilidade e preocupação em um setor que movimenta bilhões de reais e sustenta milhares de famílias em todo o país.
É impossível discutir sustentabilidade sem considerar as dimensões econômica e social da atividade. A tilapicultura brasileira não é apenas produção de alimento: ela representa geração de renda, desenvolvimento regional, segurança alimentar, inclusão produtiva e oportunidades para pequenos, médios e grandes produtores.
O Brasil construiu, com muito esforço, uma cadeia aquícola tecnificada, responsável e reconhecida internacionalmente. Não faz sentido enfraquecer um dos setores mais promissores do agronegócio nacional justamente no momento em que o mundo demanda mais proteína de qualidade e produção sustentável.
O setor precisa estar unido. É hora de fortalecer o diálogo técnico, científico e institucional, defender quem produz e exigir decisões equilibradas, responsáveis e fundamentadas em evidências, considerando não apenas aspectos de interesse específicos, mas também os impactos sociais, econômicos e estratégicos para o país.
Foto: Marilsa Patrício Fernandes
Secretária Executiva – Associação de Piscicultores em Águas Paulistas e da União – Peixe SP