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19 de agosto de 2026 - 17:41h

A Folha Agrícola

Exportações de madeira perdem US$ 275 milhões em sete meses

Especialistas apontam que o protecionismo veio para ficar e exige diversificação, compliance e visão geopolítica

As exportações brasileiras dos oito principais produtos de madeira somaram US$ 1,467 bilhão entre janeiro e julho de 2026, cerca de US$ 275 milhões abaixo do valor registrado no mesmo período de 2025, quando as vendas se aproximaram de US$ 1,75 bilhão. Os dados, que não incluem MDF, celulose e papel, foram apresentados por Marcelo Wiecheteck, Head de Desenvolvimento Estratégico da STCP, durante o episódio 29 do Podcast WoodFlow.

Apresentado por Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, o episódio também recebeu João Alfredo Nyegray, professor, pesquisador e consultor nas áreas de negócios internacionais, geopolítica e estratégia global. Os participantes analisaram os impactos das tarifas dos Estados Unidos, a dependência do setor em relação ao mercado norte-americano, os acordos comerciais do Mercosul e os obstáculos internos à competitividade brasileira.

Os números mostram comportamentos distintos entre os produtos. O serrado de pinus alcançou 1,8 milhão de metros cúbicos exportados nos primeiros sete meses do ano, com crescimento de 3% em relação ao mesmo período de 2025. Já o compensado de pinus, com quase 1,4 milhão de metros cúbicos, apresentou retração de 17% em volume e de 18% em valor. As exportações de molduras registraram queda superior a 50%.

“Isso mostra a situação que estamos vivendo, de instabilidade e, principalmente, de incerteza. Estamos falando de diferentes produtos, mercados e situações geopolíticas”, afirmou Wiecheteck.

Protecionismo entra no planejamento das empresas

Para João Alfredo Nyegray, as tarifas não devem ser tratadas apenas como medidas de um governo específico. Elas fazem parte de uma mudança mais ampla na política econômica internacional, marcada pela retomada de políticas industriais e pela tentativa de grandes economias de reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.

“Tarifas vieram para ficar e movimentos protecionistas vieram para ficar, sejam tarifários ou não. Não dá para construir um planejamento estratégico para os próximos cinco ou dez anos sem considerar as variáveis geopolíticas”, avaliou Nyegray.

A dependência dos Estados Unidos amplia a exposição da indústria brasileira. Mesmo após um movimento de diversificação, 94% das molduras de pinus exportadas pelo Brasil continuam destinadas ao mercado norte-americano. No segmento de portas de madeira, essa participação chega a 84%.

“O mercado dos Estados Unidos é o maior consumidor e comprador. Não à toa, a indústria brasileira se especializou em atendê-lo. Agora, será preciso mudar totalmente a chave”, destacou Gustavo Milazzo.

A diversificação, entretanto, não depende apenas da identificação de novos compradores. Segundo Wiecheteck, pode exigir mudanças nas especificações dos produtos, adaptação das linhas industriais, investimentos em equipamentos e desenvolvimento de itens com maior valor agregado.

“Não se diversifica de uma hora para outra. Um compensado, uma moldura ou um serrado têm especificações próprias para cada mercado. A diversificação pode envolver novos destinos, mas também novos produtos ou a adaptação da indústria para atender a outras demandas”, explicou.

Europa e Ásia abrem portas, mas não oferecem atalhos

Entre as alternativas discutidas durante o episódio 29 do Podcast WoodFlow está o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, aplicado provisoriamente desde 1º de maio de 2026. A redução gradual de tarifas pode ampliar o espaço para produtos brasileiros, mas o acesso ao mercado europeu continuará condicionado a exigências ambientais, regulatórias e de rastreabilidade.

A EUDR, regulamentação europeia para produtos livres de desmatamento, será aplicada a grandes e médios operadores a partir de 30 de dezembro de 2026. Para os participantes, o cumprimento das exigências pode deixar de ser visto apenas como custo regulatório e se transformar em vantagem competitiva para empresas brasileiras que já trabalham com florestas plantadas, certificações e rastreabilidade.

Ao mesmo tempo, o mercado europeu também adota mecanismos de proteção. Em abril, a Comissão Europeia estabeleceu uma tarifa antidumping de 5,4% para o compensado de coníferas brasileiro, com exceção de uma empresa. A medida permanece aplicável mesmo nos casos em que a tarifa comercial regular seja reduzida pelo acordo.

Segundo Wiecheteck, o Brasil possui uma base competitiva importante no setor florestal, mas precisa organizar os dados exigidos em cada operação. “As empresas já estão acostumadas a trabalhar com certificações e compliance ambiental. O desafio está na organização das informações e na demonstração desse diferencial a cada embarque”, afirmou.

Outro caminho analisado foi o acordo Mercosul–Singapura, que entrou em vigor para o Brasil em 1º de agosto. Mais do que o tamanho do mercado interno de Singapura, Nyegray destacou sua capacidade de funcionar como plataforma para a entrada de produtos de maior valor agregado em outros países asiáticos.

“Singapura pode ser vista como um hub para entender e se projetar nos mercados asiáticos. Isso pode auxiliar justamente na necessidade de diversificação”, disse o especialista durante o episódio.

Os convidados ponderaram, porém, que novos acordos comerciais não resolvem sozinhos a perda de competitividade provocada pelo custo Brasil. Logística ineficiente, fretes internos elevados, burocracia aduaneira, juros e infraestrutura ainda limitam a capacidade de transformação e exportação da indústria.

“A competitividade brasileira no campo e nas florestas plantadas é um diferencial fundamental. Da porteira para fora, entretanto, encontramos outra realidade, marcada por logística, acesso e custos”, concluiu Wiecheteck.

Sobre o Podcast WoodFlow

O Podcast WoodFlow é uma iniciativa da startup de exportação de madeira WoodFlow, e visa debater, uma vez ao mês, sobre o mercado de madeira. O CEO da WoodFlow, Gustavo Milazzo conduz as entrevistas sempre retratando o cenário e o futuro da madeira. O Podcast WoodFlow é o primeiro do país a debater temas do mercado madeireiro e pode ser acessado diretamente no youtube ou nas plataformas de streaming de áudio

Sobre o WoodFlow

A WoodFlow é uma plataforma online especializada na exportação de madeira brasileira. Com conhecimento técnico especializado, seleciona os melhores produtores, realiza o processo de cotação e negociação e oferece rastreabilidade e transparência no acompanhamento dos pedidos. Mais do que um portal, a WoodFlow conecta importadores do mercado global com produtores brasileiros.