O clima colocou os produtores do Sudoeste do Paraná diante de dois extremos em uma mesma safra. Depois de um período de geada e temperaturas elevadas que comprometeu o potencial produtivo do milho, o excesso de chuva passou a dificultar a colheita da safrinha e aumentou a preocupação com a qualidade dos grãos.
Em algumas propriedades, os prejuízos já aparecem de forma concreta. É o caso do agricultor Mauro Pagnan, da comunidade de Rio Saudade, em Francisco Beltrão, que cultivou milho safrinha e sorgo e relata perdas expressivas após a mudança no comportamento do clima.
Segundo ele, as lavouras apresentavam bom aspecto visual antes do início da colheita, mas o resultado no campo foi bastante diferente do esperado.
“Visualmente, antes de começar a colheita, estava muito bonito. Mas depois decepcionou”, relata Mauro.
Milho perde mais de 50% nas últimas áreas colhidas
O agricultor conta que iniciou a colheita do milho antes que as chuvas se intensificassem. Nas primeiras áreas, o cenário ainda parecia controlado, mas a sequência de precipitações aumentou a umidade e comprometeu o produto que permaneceu mais tempo no campo.
De acordo com Mauro, nas últimas lavouras de milho colhidas, as perdas superaram 50%.
“A perda foi maior, mais que 50%, pela umidade e pela variação que deu”, explica.
O relato ajuda a dimensionar no campo um problema que já vinha sendo apontado pelos dados climáticos. Em Francisco Beltrão, o Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (Sisdagro), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), havia estimado perda acumulada de produtividade de até 59,9% para o milho no período analisado entre 1º de fevereiro e 4 de maio, em razão do déficit hídrico.
O levantamento considera os efeitos da geada sobre a cultura em fases importantes do desenvolvimento, como florescimento e enchimento de grãos.
Depois da geada, porém, o problema mudou de característica. A sequência de chuvas aumentou a umidade dos grãos e do solo e reduziu as janelas disponíveis para a entrada das máquinas.

Sorgo teve perda estimada em 80% pelo produtor
Além do milho, Mauro também cultivou sorgo em uma área semeada mais tarde, fora da janela considerada ideal para a cultura.
Segundo o agricultor, a combinação entre a ocorrência de geada e, posteriormente, o excesso de chuva provocou uma perda estimada em aproximadamente 80% na área de sorgo.
“O sorgo, que foi plantado um pouco mais tarde, fora da janela ideal, deu uma perda de 80%. Porque a geada pegou bastante e depois a chuva”, relata.
O percentual de 80% citado nesta reportagem corresponde à estimativa feita pelo próprio produtor em sua área e não representa uma estimativa oficial para toda a região.
Julho teve chuva muito acima da média
Os dados do Simepar mostram a dimensão da mudança climática enfrentada pelos produtores.
Em julho, 41 das 45 estações paranaenses com mais de cinco anos de histórico registraram volumes de chuva acima da média. No Sudoeste, Francisco Beltrão acumulou 219,2 milímetros, mais que o dobro da média histórica de 104,6 milímetros.
Pato Branco recebeu 278,2 milímetros, diante de uma média histórica de 112,4 milímetros. Em Palmas, foram 311 milímetros, o maior volume registrado para julho em 28 anos de dados da estação.
Cruzeiro do Iguaçu acumulou 280,6 milímetros, enquanto Capanema recebeu 151,4 milímetros, também acima da média histórica.
Colheita do milho enfrenta dificuldades
No início de agosto, a colheita da segunda safra de milho no Paraná havia alcançado 60% da área cultivada. As chuvas, entretanto, vinham dificultando o avanço das máquinas em diferentes regiões.
Para produtores que ainda tinham milho no campo, a preocupação passou a ser dupla: conseguir encontrar uma janela de tempo e solo adequados para a entrada das máquinas e, ao mesmo tempo, evitar que a permanência prolongada da lavoura em condições de alta umidade provoque perdas adicionais de qualidade.
No caso de Mauro, a experiência mostra como o excesso de chuva pode transformar rapidamente uma lavoura que aparentava bom potencial em uma colheita com perdas significativas.
Trigo entra em período de atenção
Enquanto o milho enfrenta os impactos acumulados das chuvas na colheita, o trigo entra em uma fase que exige atenção dos produtores.
O boletim do Deral referente ao início de agosto apontava que praticamente toda a área paranaense já havia sido semeada e que 97% das lavouras estavam em boas condições.
A umidade é importante para o desenvolvimento inicial, mas a permanência de períodos chuvosos pode favorecer doenças e dificultar a realização de aplicações e outros manejos.
O risco também aumenta quando o excesso de chuva ocorre próximo à maturação e à colheita, podendo comprometer tanto o rendimento quanto a qualidade comercial dos grãos.