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7 de outubro de 2026 - 16:42h

A Folha Agrícola

Erros técnicos na coleta de solo podem comprometer recomendações agronômicas

Mais do que retirar terra da lavoura, uma amostragem representativa precisa revelar o que acontece no perfil do solo, desta forma, o acesso à camada de 0 a 40 cm e fracionamento em subcamadas ampliam a qualidade do diagnóstico

Uma análise de solo pode ser tecnicamente precisa e, ainda assim, levar a uma recomendação agronômica inadequada. O laboratório analisa exatamente o material que recebe, se a amostra não representa corretamente a área de onde foi retirada, os números obtidos podem ser precisos do ponto de vista analítico, mas não necessariamente traduzirão as condições encontradas na lavoura.

Essa diferença entre exatidão da análise e representatividade da amostra ganha importância à medida que o produtor busca maior eficiência no uso de fertilizantes, corretivos e condicionadores de solo. Em sistemas de produção mais tecnificados, conhecer apenas a fertilidade da superfície não é suficiente.

É necessário entender o que acontece nas camadas abaixo dela. “A qualidade do diagnóstico da fertilidade começa no campo, com uma amostragem representativa, e se consolida no laboratório, mediante análises confiáveis e interpretação agronômica criteriosa”, diz o produtor rural e presidente do Grupo J2M, Evandro Martins.

A preocupação está diretamente relacionada à variabilidade natural do solo e às transformações provocadas pelo manejo. Aplicações de fertilizantes e corretivos, ciclagem de nutrientes, deposição de resíduos culturais e movimentação de elementos no perfil podem fazer com que diferentes profundidades apresentem condições químicas bastante distintas.

Entre os problemas mais comuns de uma coleta inadequada estão a delimitação incorreta das unidades de amostragem, o número insuficiente de pontos ou sua distribuição errada, a escolha equivocada das profundidades e a coleta em locais atípicos. Também podem ocorrer contaminação por resíduos de fertilizantes ou corretivos e falhas na homogeneização e identificação do material.

Outro ponto crítico é misturar solos provenientes de diferentes profundidades quando o objetivo é justamente compreender a distribuição dos atributos ao longo do perfil. “É importante distinguir a exatidão analítica da representatividade da amostra. A primeira diz respeito à qualidade do resultado produzido pelo laboratório. A segunda está relacionada à capacidade daquela amostra de representar as condições da área ou da unidade de manejo”, explica Martins.

O que acontece abaixo dos 20 centímetros?

A questão ganha relevância principalmente em áreas conduzidas sob Sistema Plantio Direto, onde grande parte dos fertilizantes e corretivos é aplicada na superfície. Nessas condições, pode haver concentração de determinados nutrientes nas camadas superiores enquanto, em profundidade, permanecem limitações relacionadas à acidez, ao alumínio em níveis potencialmente tóxicos, à disponibilidade de nutrientes ou a outros atributos que interferem no desenvolvimento das raízes.

Uma amostra superficial pode, portanto, indicar condições aparentemente favoráveis sem revelar restrições existentes em subsuperfície. É justamente nesse ponto que o conhecimento científico tem papel importante. O pesquisador e doutor José Eloir Denardin, acompanha as discussões relacionadas à qualidade do manejo e à avaliação do solo e é parceiro científico do Grupo J2M nas pesquisas e no desenvolvimento do conceito de amostragem estratificada aplicado ao projeto.

A parceria entre pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico busca responder a uma questão prática: como obter uma amostra que permita enxergar o perfil do solo sem perder a identidade das diferentes camadas? A coleta estratificada parte de um princípio relativamente simples: em vez de considerar o solo de diferentes profundidades como um único material, cada camada é preservada e analisada individualmente.

Dessa forma, uma coleta que alcance de 0 a 40 centímetros pode ser posteriormente dividida em subcamadas, como 0-10, 10-20, 20-30 e 30-40 centímetros, de acordo com a finalidade do diagnóstico. A diferença é importante porque valores médios podem esconder contrastes relevantes.

Imagine, por exemplo, uma área em que a camada de 0-10 cm apresenta bom nível de determinado nutriente, enquanto entre 10 e 20 cm o teor é baixo. Ao misturar os dois estratos, o resultado final será intermediário. O número estará correto para aquela mistura, mas não revelará necessariamente que existe uma diferença entre as duas camadas.

Quando os estratos são analisados separadamente, a informação muda de qualidade: além de saber quanto existe de determinado atributo, o técnico passa a saber onde ele está. Essa leitura pode ser importante para compreender o ambiente explorado pelas raízes.

A mesma lógica vale para a acidez, uma área pode apresentar uma camada superficial com condições químicas adequadas e, ao mesmo tempo, manter restrições em subsuperfície. Entre os fatores que podem ser identificados estão elevada acidez, saturação por alumínio e baixos teores de determinados nutrientes.

Essas limitações podem interferir no aprofundamento das raízes e, consequentemente, no acesso da planta à água e aos nutrientes armazenados em camadas mais profundas. O efeito pode ganhar importância em períodos de restrição hídrica. Um sistema radicular que encontra limitações químicas em profundidade pode explorar um volume menor de solo, reduzindo sua capacidade de acessar a água disponível em camadas mais profundas.

Por isso, a avaliação do perfil não deve ser entendida apenas como uma busca por nutrientes. Ela ajuda a compreender o ambiente químico em que as raízes estão se desenvolvendo. A interpretação, naturalmente, precisa considerar também atributos físicos do solo, histórico da área, cultura implantada, sistema de manejo e critérios técnicos específicos para cada atributo.

Uma única coleta para acessar 0-40 cm

Foi a partir dessa necessidade que o Grupo J2M, em parceria com a pesquisa científica, desenvolveu um sistema destinado à coleta estratificada. O amostrador de solos J2M foi concebido para realizar a extração contínua do perfil de 0 a 40 cm, permitindo preservar o material coletado ao longo da profundidade para posterior fracionamento.

Segundo Martins, um dos diferenciais do sistema é justamente evitar o arraste de solo entre as diferentes subcamadas durante a extração. O desempenho foi submetido a avaliações, com os dados posteriormente analisados estatisticamente, dando suporte experimental ao conceito. “O diferencial técnico é permitir a obtenção de uma amostra contínua da camada de 0 a 40 centímetros, sem arraste de solo entre as subcamadas. Depois, esse material pode ser fracionado nas profundidades de interesse para o diagnóstico”, diz.

Nos métodos convencionais, quando se deseja avaliar diferentes profundidades, normalmente são realizadas operações individualizadas para cada camada. No sistema desenvolvido pela J2M, a extração do perfil ocorre em uma única operação e, posteriormente, o material é fracionado com o auxílio de um segundo equipamento desenvolvido para essa finalidade.

O procedimento permite obter amostras individualizadas de cada estrato sem repetir a operação de coleta para cada profundidade, o que pode trazer ganhos de agilidade e padronização, especialmente em áreas que demandam grande número de pontos amostrais.

Agricultura de precisão

A evolução da agricultura de precisão torna essa discussão ainda mais relevante. Mapas de fertilidade, zonas de manejo e aplicação de insumos em taxas variáveis dependem da qualidade do dado utilizado para alimentar os sistemas. Se estes não representarem corretamente o solo, a tecnologia pode apenas automatizar uma decisão baseada em informação inadequada.

Por isso, a agricultura de precisão não começa necessariamente na máquina que distribui o fertilizante em taxa variável. Ela inicia na qualidade do diagnóstico. A amostragem georreferenciada permite compreender a variabilidade horizontal da lavoura. A coleta em diferentes profundidades acrescenta outra dimensão: a variabilidade vertical.

As duas informações podem ser complementares. Uma determinada região da lavoura pode apresentar fertilidade diferente de outra e, dentro daquele mesmo ponto, as condições podem variar significativamente entre a superfície e a subsuperfície. “Não se trata simplesmente de coletar mais solo. É melhorar a qualidade da informação obtida, para que a recomendação agronômica seja baseada em uma representação mais fiel do perfil”, finaliza Martins.