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20 de outubro de 2026 - 14:18h

A Folha Agrícola

Excesso de chuva atrasa plantio da soja no Paraná

Umidade acima da média também impacta as lavouras de trigo, dificultando a colheita e reduzindo a qualidade do grão

As chuvas frequentes no Paraná estão causando atraso no plantio da soja e comprometendo a qualidade do trigo que ainda permanece no campo. Os efeitos envolvem desvalorização dos grãos por perda de qualidade, despesas adicionais e mudanças no planejamento da safra de verão, além de riscos para o desenvolvimento das lavouras nos próximos meses e redução da janela disponível para a implantação do milho safrinha. O cenário ocorre após um setembro de chuvas acima da média. Em 14 estações meteorológicas do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), o acumulado foi o maior para o mês desde o início da série histórica há mais de 25 anos.

De acordo com o levantamento do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), a semeadura da soja atingiu 39% da área prevista no Paraná no final da pieira quinzena de outubro, ou seja, 5,7 milhões de hectares. O boletim também aponta impactos das chuvas no ritmo dos trabalhos de campo e na qualidade das lavouras.

“Os prejuízos das chuvas vão além da lavoura, uma vez que aumentam os custos de produção, comprometem a renda e dificultam o planejamento. Por isso, o Sistema FAEP atua na defesa de um seguro rural e de políticas públicas que permitam ao produtor condições de enfrentar essas perdas e manter sua atividade”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Poucos dias para trabalhar

Nos municípios de Manoel Ribas e Ivaiporã, no Vale do Ivaí, o produtor Marcelo Alberton destina 87,1 hectares à soja e 43 hectares ao trigo. Com 22 anos de experiência nessas culturas, o agricultor relata que as chuvas de setembro e outubro impediram a colheita do cereal no momento adequado e alteraram o planejamento da safra seguinte.

“Do início de setembro até agora, tivemos apenas seis dias com abertura de sol que permitiram o plantio da soja. No entanto, ainda havia trigo para colher”, afirma.

A intenção era semear primeiro as variedades de soja de ciclo longo, até 5 de outubro. Como isso não foi possível, Alberton passou a trabalhar com a alternativa de cultivares de ciclo curto, que pretendia plantar até o dia 20. A sequência de dias chuvosos, porém, estreitou o período disponível para executar as operações. A preocupação também alcança as lavouras implantadas, nas quais ele observa emergência e crescimento irregulares das plantas.

“As plantas estão nascendo com o solo encharcado, o que dificulta o enraizamento. Também dificulta a entrada das máquinas para pulverização e aplicação de fungicidas e inseticidas nos momentos certos”, relata.

Em Engenheiro Beltrão e Roncador, no Noroeste do Estado, Mauro César Volponi dos Santos enfrenta situação semelhante. Com aproximadamente 750 hectares destinados à soja e 180 hectares ao trigo, o produtor estima um atraso de cerca de 20 dias nos trabalhos. Até o momento, o agricultor semeou aproximadamente 30% da área de soja.

O plantio começou em 25 de setembro e deveria terminar por volta de 25 de outubro. Agora, a expectativa é concluir próximo de 10 de novembro, dependendo das condições meteorológicas. Segundo Santos, uma das semanas mais críticas teve acumulado de 250 milímetros nas áreas em que trabalha, com erosão, encharcamento e surgimento de pontos de afloramento de água.

“Não conseguimos plantar e ainda tenho uma parte da área de trigo para colher”, resume.

O excesso de chuva também interfere nas operações de controle de plantas daninhas. Santos já identifica a necessidade de reaplicar herbicidas em algumas áreas, principalmente para combater a buva, com despesa adicional de R$ 200 por hectare nas áreas que exigirem novas intervenções. O custo pode aumentar mais se houver necessidade de replantio ou maior pressão de doenças.

“Chuvas intensas podem arrastar sementes e plantas pequenas, enquanto a umidade persistente favorece doenças e pode exigir aplicações adicionais de fungicidas”, explica a coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, Ana Paula Kowalski.

Trigo perde qualidade e valor

Para o trigo, a permanência no campo após o momento adequado de colheita amplia a exposição dos grãos à umidade. O prejuízo pode ocorrer tanto pela redução da quantidade colhida quanto pela perda de qualidade, que afeta a classificação comercial e a remuneração do produtor.

Alberton e Santos relatam queda no peso hectolítrico, conhecido como PH, e do Falling Number ou Número de Queda, indicadores utilizados na avaliação comercial do cereal. No caso de Santos, parte do trigo perdeu qualidade e passou a ser classificada para outros usos.

De acordo com Ana Paula, a umidade elevada favorece doenças nas espigas e a deterioração dos grãos. Em situações mais severas, as perdas podem inviabilizar a colheita.

“Os valores menores de PH resultam em uma tipificação pior no momento da classificação dos grãos, enquanto o falling number menor derruba a classe do trigo, o que resulta em farinha que não é apta para panificação e o produtor recebe menos por esse motivo”, afirma.

Além da qualidade do produto, há dificuldades para retirar e entregar a produção. Alberton relata que a capacidade de secagem das cooperativas não tem sido suficiente para atender à demanda de produtos com umidade elevada.

“A situação gerou filas de dias, despesas com frete e paralisação das máquinas no campo”, pontua.

Atraso alcança a segunda safra

Os efeitos do excesso de chuva podem se estender por vários meses, impactando no período planejado para o milho safrinha. Isso porque, segundo Ana Paula, a nebulosidade prolongada também pode alongar o ciclo da soja, aumentando a pressão sobre a cultura seguinte.

“Quando o ciclo da soja se alonga, o milho também é prejudicado. É um efeito cascata”, afirma.

Na propriedade de Santos, o milho de segunda safra estava previsto para começar a ser plantado no fim de janeiro. Com a alteração no calendário da soja, o produtor projeta que a operação avance por fevereiro e, em parte das áreas, alcance a primeira quinzena de março.

O produtor teme redução de produtividade com a semeadura mais tardia. No seu caso, o milho tem destino definido: a alimentação de suínos. Por isso, uma eventual quebra também interfere no planejamento da atividade pecuária.

Sistema FAEP