Guilherme Augusto Vieira[1]
A pecuária de corte moderna consolida-se por meio da adoção de modelos produtivos intensivos, fundamentais para encurtar o ciclo de produção, melhorar o acabamento de carcaça e maximizar o retorno econômico. Dentre esses sistemas, destacam-se a Recria Intensiva a Pasto (RIP), a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) e o Semiconfinamento.
A Recria Intensiva a Pasto (RIP) é um programa de suplementação estratégica (consiste no uso de rações e proteinados tendo o pasto como volumoso) que visa acelerar o desenvolvimento de animais jovens.
Ela é aplicada na fase pós-desmama (geralmente dos 7-8 meses de idade, com 180-210 kg de peso vivo) até o período que antecede a terminação (aproximadamente 350 kg de peso corporal, variável por mercado e região), requerendo instalações, animais, manejos sanitários e nutricionais diferenciados para atingir seus objetivos produtivos.
O processo produtivo é recente, menos de cinco anos de utilização. Com a expansão da adoção da RIP e o consequente incremento produtivo, surgem desafios operacionais, manejos sanitários e nutricionais que demandam atenção especial, em especial: pressão de pisoteio do pasto, logística de cocho, desuniformidade do lote ou custo da suplementação.
Contudo, nos últimos dois anos, com o lançamento do nosso livro[2] sobre o tema e a consolidação do sistema em várias fazendas, sobressaíram-se dois problemas centrais de ordem sanitária e de manejo na RIP: a fotossensibilização dos bovinos ( Requeima) e a Doença Respiratória Bovina, focos do presente artigo.
- Requeima ou Fotossensibilização
A Requeima consiste em uma dermatite inflamatória observada em bovinos de pele clara (frequente na raça Nelore) manejados em áreas de Brachiaria decumbens. Acomete sobretudo animais jovens nas fases de cria, recria e garrotes. Contudo, conforme demonstrado pela literatura e na rotina diária das fazendas, apenas 30% a 40% do rebanho apresenta suscetibilidade ao problema.
A doença ocorre quando os animais ingerem as pastagens de Brachiaria decumbens infestadas pelos esporos do fungo Pithomyces chartarum e pode ser desenvolvida por duas vias : primária ou secundária.
Primária: O animal ingere plantas ou pastagens contaminadas que contêm compostos fotodinâmicos preexistentes. Essas substâncias ativas são absorvidas pelo trato digestivo, entram na corrente sanguínea periférica e se depositam diretamente nos tecidos da pele sem sofrer metabolismo hepático prévio. Quando a pele do animal é exposta à luz solar, esses compostos absorvem a radiação UV, liberam energia e provocam reações químicas que danificam as células cutâneas, resultando em dermatite grave.
Secundária ou hepatógena ( a mais comum): Ao ingerir as plantas com esporos do fungo, estes sintetizam toxinas específicas (esporidesmina). As toxinas circulam pelo organismo, chegando ao fígado onde lesionam o órgão causando lesões hepatocelulares impedindo a metabolização da filoeritrina. O acúmulo de filoeritrina na corrente sanguínea chega à pele. Ao entrar em contato com a luz solar, essa substância atua como um potente fotossensibilizador, gerando radicais livres que causam intensa lesão tecidual.
Os animais acometidos apresentam dermatites, pele vermelha, ficam apáticos, inapetentes, perda de peso, o que compromete a velocidade de ganho de peso na RIP, além de graves prejuízos sanitários, econômicos (atraso no desenvolvimento dos animais) e financeiros (gastos com produtos veterinários).
- Doença Respiratória Bovina
Conhecida como Doença Respiratória Bovina (DRB) ou Complexo Respiratório Bovino (CRB) — e historicamente denominada ‘Febre dos Transportes’ —, trata-se de uma síndrome multifatorial. Sua ocorrência resulta da interação entre estresse (manejo e transporte), fatores ambientais (poeira e amplitude térmica) e a ação conjunta de agentes virais e bacterianos.
Trata-se de uma enfermidade infectocontagiosa,com alta morbidade e letalidade, que acomete as seguintes categorias:
- Bezerros na fase de cria (devido as falhas do sistema imunológico, colostragem inadequada e estresse de desmame);
- Bovinos de Recria e Confinamento/TIP (Corte): Animais recém-chegados ao confinamento, RIP/TIP ou submetidos a longos transportes (“Febre dos Transportes”), misturas de lotes, poeira nos currais e mudanças bruscas na dieta.
A doença apresenta uma fase viral (o vírus penetra no organismo juntamente com as partículas de poeiras, destruindo a mucosa da traqueia e fragilizando a imunidade). Os principais vírus são: O Herpesvírus Bovino Tipo 1 (IBR), o Vírus da Diarreia Viral Bovina (BVD), o Vírus Respiratório Sincicial Bovino (BRSV) e a Parainfluenza.
Fase bacteriana ( secundária) : com a barreira ciliar comprometida, bactérias oportunistas de alta agressividade (como Pasteurella multocida, Mannheimia haemolytica e Mycoplasma bovis) invadem o sistema respiratório, desencadeando um quadro severo de broncopneumonia necrótica.
A propagação ocorre pelo contato direto entre bovinos sadios e doentes por meio de secreções respiratórias (aerossóis expelidos em tosses e espirros), ou de forma indireta pelo compartilhamento de cochos, bebedouros e pelo estresse em caminhões boiadeiros.
Os animais acometidos apresentam a sintomatologia clássica da pneumonia, porém com maior gravidade e letalidade.
Quais as estratégias práticas para o enfrentamento dos novos desafios da RIP?
Para a prevenção da requeima/ fotossensibilização recomenda-se na implantação do projeto de piquetes para a RIP a utilização de outras espécies de Brachiária ( Ruziziensis, Humidícola, Paiaguás, Brachiarão, etc..) ou capins Panicum ( Tanzânia, Mombaça, colonião).
Para controlar a Sindrome Respiratória Bovina aconselha-se alteração no calendário profilático da RIP com a introdução da vacinação específica de pneumonia, além claro das vacinas clostridioses e antirábica. Também recomenda-se a adoção de pastos quarentenas para chegada dos novos animais assim como pastos “enfermaria” para tratamento dos animais doentes.
Diante do exposto, verifica-se que a expansão da RIP e a intensificação dos sistemas de produção — marcadas por maior concentração de animais e a adesão de novos pecuaristas — revelam gargalos inéditos que desafiam o dia a dia de campo de técnicos e produtores.
Este artigo cumpriu o propósito de antecipar esses novos entraves da recria intensiva, sabendo que a dinâmica da pecuária moderna continuará exigindo inovação, acompanhamento técnico rigoroso e novos estudos
O próximo artigo abordarei sobre os novos problemas na TIP.
[1] Médico Veterinário, Douto em História das Ciências, autor dos Manuais Semiconfinamento e Confinamento, atualmente é gestor da Plataforma www.semiconfinamento.com.br Embaixador de conteúdo do Giro do Boi Canal Rural , escreve no Agrolink, Folha Agrícola e O Presente Rural. Contatos com o autor: guilherme@farmacianafazenda.com.br ou Instagram@gvieiraoficial
Requeima
[2] Manual Recria Turbinada/RIP. Disponível em : www.semiconfinamento.com.br