*Por Álvaro Duarte
A ciência avança, empresas enfrentam problemas e o mercado demanda novas soluções. Mas essas três realidades nem sempre se encontram. O resultado é um descompasso entre o conhecimento produzido nas universidades e nos institutos de pesquisa e as necessidades de quem precisa inovar na prática. Afinal, se temos conhecimento científico e demandas por novas tecnologias, por que tantas oportunidades de inovação não avançam?
Parte da resposta está nas dificuldades de conexão entre esses dois universos. Há empresas que não sabem onde encontrar a competência científica necessária para solucionar seus problemas e pesquisadores que desenvolvem tecnologias com potencial de aplicação, mas nem sempre encontram parceiros ou recursos para avançar. O desafio, portanto, não está apenas em produzir conhecimento, mas em criar condições para que ele possa ser aplicado.
Essa aproximação, no entanto, envolve obstáculos que vão além da disposição para trabalhar em conjunto. A pesquisa científica exige tempo para investigação, experimentação e validação de resultados, enquanto as empresas frequentemente precisam responder a demandas de mercado em prazos mais curtos. Questões relacionadas ao financiamento, à propriedade intelectual, à divisão de responsabilidades e à utilização comercial das tecnologias também precisam ser resolvidas. Sem esse alinhamento, mesmo projetos promissores podem não sair do papel.
Por isso, colocar pesquisadores e empresários na mesma sala não é suficiente. É preciso compreender as necessidades de cada lado, identificar interesses comuns e transformar oportunidades em projetos estruturados, com objetivos, recursos e responsabilidades definidos. Essa articulação exige conhecimento técnico, capacidade de gestão e mecanismos que ofereçam segurança às instituições envolvidas. Muitas vezes, o que impede uma tecnologia de avançar não é a ausência de potencial, mas a dificuldade de construir um caminho viável para seu desenvolvimento.
Um exemplo é a parceria entre o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e a startup BioinFood, especializada em fermentos e processos fermentativos. Com a participação da Fundepag na viabilização do acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação, a iniciativa permitiu o compartilhamento da infraestrutura científica do instituto para pesquisas voltadas à indústria de alimentos e bebidas. A experiência ilustra como a aproximação entre competências científicas e demandas empresariais depende também de instrumentos adequados de cooperação.
A dimensão desse trabalho pode ser observada nos resultados da Gerência de Negócios e Inovação da Fundepag, que atendeu 135 oportunidades de projetos em 2025, com taxa de conversão em contratos de 30%. Os números ajudam a demonstrar que a inovação exige uma atuação organizada para identificar demandas, estruturar propostas e viabilizar parcerias. Mais do que promover contatos, é necessário criar condições para que a cooperação se transforme em projetos concretos.
Isso não significa subordinar a ciência às necessidades imediatas do mercado. A pesquisa básica, mesmo sem perspectiva de aplicação comercial no curto prazo, é indispensável para ampliar as fronteiras do conhecimento e sustentar descobertas futuras. O desafio é reconhecer quando existe potencial de colaboração e estabelecer condições para que pesquisadores e empresas possam trabalhar juntos, respeitando seus diferentes objetivos e tempos de atuação.
O Brasil reúne instituições científicas, pesquisadores qualificados e setores produtivos que precisam de soluções para desafios cada vez mais complexos. Aproveitar esse potencial exige superar a visão de que a inovação começa e termina no desenvolvimento de uma tecnologia. Entre a descoberta científica e sua aplicação existe um percurso que precisa ser planejado, financiado e gerido.
Produzir conhecimento é essencial, mas não basta. Para que ele se transforme em inovação, é necessário construir pontes permanentes entre ciência e mercado, capazes de converter oportunidades de cooperação em projetos viáveis. Sem essa articulação, continuaremos produzindo conhecimento com potencial de aplicação que nem sempre encontra condições para avançar.
* Álvaro Duarte é diretor-presidente da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag)
Sobre a Fundepag
A Fundepag foi criada em 1978, a partir dos esforços de grupos empresariais, representantes da agropecuária, da indústria, do comércio e das finanças para somar esforços do Estado e da iniciativa privada no desenvolvimento de projetos de pesquisa.
Apoia e executa diversos tipos de projetos, serviços tecnológicos, capacitações e eventos. Oferece uma estrutura de apoio administrativo-financeiro, de gestão de pessoas, consultoria jurídica, ferramentas informatizadas, além de uma área voltada a novos negócios e inovação, com a qualidade e ética assessoradas pelas ISO 9001:2015 (qualidade), ISO 37301:2017 (compliance) e ISO 37001:2017 (antissuborno).
Mais informações: https://portal.fundepag.br