*Leandro Viegas
A rastreabilidade chegou para ficar. O mercado global exige cada vez mais transparência sobre a origem dos alimentos, e essa é uma realidade que o agro brasileiro precisa encarar com maturidade. A verdadeira discussão já não é se devemos adotá-la, mas como garantir que ela fortaleça o produtor em vez de limitar sua competitividade.
Como alguém que nasceu no interior de Mato Grosso e acompanhou de perto a evolução do agro brasileiro, acredito que esse debate precisa ser conduzido com equilíbrio e racionalidade. Vi o campo enfrentar secas, enchentes, crises econômicas, mudanças de governo e transformações tecnológicas que pareciam impossíveis há poucas décadas. Em todos esses momentos, o produtor mostrou capacidade de adaptação. Com a rastreabilidade, não será diferente, desde que o processo seja construído com técnica, inclusão e bom senso.
Não há dúvidas de que a rastreabilidade representa um avanço importante. O consumidor moderno quer saber de onde vem aquilo que consome e quer garantias ambientais, sociais e sanitárias. E isso não é uma exigência apenas da Europa, mas sim, uma tendência global que veio para ficar.
O Brasil é um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo. Em 2025, por exemplo, as exportações do setor somaram US$ 169,2 bilhões e representaram 48,5% de tudo o que o país exportou no ano, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária. Esse peso na balança comercial mostra que qualquer mudança regulatória internacional tem impacto direto sobre milhares de produtores, empresas e cadeias produtivas que dependem do comércio exterior.
Vemos isso diariamente com mercados internacionais ampliando exigências relacionadas à origem, sustentabilidade e conformidade ambiental dos produtos agrícolas. Nesse contexto, a rastreabilidade deixou de ser apenas uma ferramenta operacional e passou a ocupar um lugar estratégico para o comércio global.
O ponto de atenção surge quando a discussão deixa de ser técnica e passa a ser política. Nos últimos anos, observamos um aumento significativo das exigências internacionais sobre produtos agrícolas brasileiros. Em muitos casos, essas medidas contribuem para elevar padrões de sustentabilidade, em outros, porém, surge uma dúvida legítima: estamos diante de uma preocupação ambiental genuína ou de uma nova forma de proteção comercial?
O Brasil possui uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo. Nenhum grande país produtor exige que seus agricultores mantenham percentuais tão elevados de preservação dentro de suas propriedades quanto exige o Código Florestal Brasileiro. Ainda assim, frequentemente somos colocados sob suspeita por mercados que, historicamente, devastaram suas próprias florestas durante seus processos de desenvolvimento.
Essa reflexão não deve ser entendida como resistência à sustentabilidade, pelo contrário. O agro brasileiro precisa seguir avançando em transparência, inovação e responsabilidade ambiental. Mas é preciso garantir que as regras sejam proporcionais, aplicáveis e construídas com base em critérios técnicos, e não em interesses comerciais disfarçados de preocupação ambiental.
Impacto para pequenos e médios
Outro ponto que merece atenção é o impacto sobre pequenos e médios produtores. Grandes grupos agrícolas possuem estrutura, equipes técnicas e recursos para atender rapidamente novas exigências de certificação, monitoramento e comprovação de origem. Já o pequeno e médio produtor enfrenta uma realidade diferente e que muitas vezes, ele sequer possui acesso adequado à conectividade rural, assistência técnica especializada ou ferramentas digitais capazes de atender a todas as exigências impostas pelos compradores internacionais.
O risco é criar um sistema que, na prática, exclua justamente aqueles que mais precisam de oportunidades para crescer. A rastreabilidade não pode se transformar em uma barreira de entrada para quem produz corretamente, mas ainda não tem estrutura para acompanhar a velocidade das exigências externas.
A boa notícia é que o Brasil possui competência técnica para superar esse desafio. Somos referência mundial em agricultura tropical, tecnologia de produção, aplicação, manejo e inovação no campo. O agronegócio brasileiro já utiliza satélites, inteligência artificial, agricultura de precisão, drones e plataformas digitais em larga escala. Temos condições de construir sistemas robustos de rastreabilidade.
Nesse processo, empresas ligadas ao agro têm um papel fundamental. Mais do que desenvolver tecnologias, precisam atuar como parceiras do produtor, oferecendo suporte técnico, capacitação e ferramentas que tornem a adaptação viável para propriedades de todos os portes. A inovação só cumpre seu papel quando chega à ponta e ajuda o produtor a tomar decisões melhores, reduzir riscos e acessar mercados com mais segurança.
Mas isso exige investimento, capacitação e, principalmente, inclusão. A rastreabilidade deve funcionar como uma ponte entre produtor e consumidor, e não como um muro que dificulte o acesso aos mercados. Precisamos garantir que a tecnologia esteja disponível para todos, independentemente do tamanho da propriedade.
Defendo a rastreabilidade. Ela fortalece a confiança, agrega valor aos produtos e evidencia aquilo que o produtor brasileiro faz de melhor. Mas também defendo que as regras sejam justas, transparentes e aplicadas de forma equilibrada, sem se transformarem em instrumentos de concorrência desleal.
O produtor já provou sua capacidade de alimentar o mundo. O próximo passo é garantir que as novas exigências globais reconheçam esse esforço e valorizem quem produz com responsabilidade. O desafio vai além de rastrear a origem dos alimentos. É sobre garantir que a evolução do mercado caminhe lado a lado com a valorização de quem produz.
*Empresário, bacharel em Direito, administrador, produtor rural e co-fundador e CEO da Sell Agro.