* Bento Mineiro
Quando olho para a África de hoje, vejo um continente diante de uma das maiores oportunidades econômicas e produtivas do século. São 55 países, cerca de 1,4 bilhão de habitantes e uma população majoritariamente jovem, com enorme capacidade de trabalho, consumo e transformação social. Ao mesmo tempo, trata-se de uma região que precisa acelerar a produção de alimentos, estruturar cadeias agroindustriais e gerar eficiência no campo para sustentar o crescimento que já está em curso. É justamente nesse ponto que acredito que o Brasil tem muito a oferecer.
Tenho defendido, com convicção, que o zebu brasileiro é uma das respostas mais consistentes para o desenvolvimento da pecuária africana. Não se trata de retórica comercial, mas de uma constatação técnica, construída ao longo de décadas de seleção genética, adaptação tropical e resultados concretos. O nosso rebanho zebuíno aprendeu a produzir em clima quente, enfrentando desafios sanitários, nutricionais e ambientais muito semelhantes aos encontrados em grande parte do território africano atualmente.
A África possui, hoje, algo em torno de 300 milhões de cabeças de gado. É um número relevante, mas insuficiente diante do tamanho da população atual e, sobretudo, do crescimento demográfico projetado para as próximas décadas. Além disso, em muitos países, ainda predominam animais sem melhoramento genético consistente, sistemas extensivos ineficientes, baixa produtividade e limitada integração tecnológica. Em diversas regiões, rebanhos percorrem 800 km em busca de água e alimento, o que reduz o desempenho e dificulta a organização da atividade pecuária.
Quando afirmo que o zebu brasileiro pode ajudar a transformar esse cenário, falo de algo concreto: é a ferramenta para produção de bovinos adaptados ao calor, mais resistentes, férteis e produtivos. Resultado de um pacote tecnológico completo, construído ao longo de seis décadas de seleção e que ajudou a colocar o Brasil no topo das exportações de carne bovina. A grande vantagem para os países africanos é que não precisarão refazer esse percurso do zero.
Nos últimos anos, acompanhamos o interesse crescente de empresários e produtores dauele continente por essa solução brasileira. Eles perceberam que a tropicalização da pecuária feita no Brasil criou um know-how raro no mundo. Enquanto muitos centros tradicionais de genética bovina se desenvolveram em climas temperados, nós construímos eficiência nos trópicos. Isso faz toda a diferença.
Outro ponto essencial é que exportar genética não significa apenas vender embriões, sêmen ou animais. Significa transferir conhecimento. Defendo que o verdadeiro impacto em qualquer atividade ocorre quando levamos também tecnologia, capacitação, protocolos reprodutivos, manejo nutricional e assistência técnica. A tecnologia só prospera quando encontra pessoas preparadas para utilizá-la.
Tenho visto profissionais africanos visitarem fazendas, centrais genéticas e laboratórios brasileiros, buscando aprender sobre inseminação, fertilização in vitro, sincronização reprodutiva, transferência embrionária e gestão. Da mesma forma, temos ido ao continente africano implantar programas reprodutivos diretamente nas propriedades. Essa troca cria pontes duradouras e acelera resultados.
Há ainda um aspecto geopolítico pouco debatido. O Brasil pode ocupar um espaço estratégico como parceiro do desenvolvimento agropecuário africano. Somos uma potência agrícola e pecuária, dominamos a produção de alimentos nos trópicos e temos experiência crescer com competitividade. Em vez de olhar apenas para mercados tradicionais, precisamos compreender a África, e também a Ásia, como parceiras naturais de longo prazo.
Se a população africana dobrar nas próximas décadas, como indicam as projeções internacionais, a demanda por proteína animal e leite crescerá ainda mais. Quem fizer parte desta realidade desde agora estará participando de um processo histórico.
Por isso, o avanço da genética zebuína brasileira pela savana não é um episódio isolado. É o começo de uma agenda econômica, tecnológica e diplomática muito maior. O Brasil tem condições reais de contribuir para a segurança alimentar de continentes inteiros, ao mesmo tempo em que amplia mercados, gera valor agregado e fortalece sua presença global.
Poucas vezes tivemos diante de nós uma oportunidade tão clara. A África precisa produzir mais, o Brasil sabe como fazer isso e o nosso zebu pode ser a ponte entre essas duas realidades.
* Bento Mineiro é sócio-fundador da Zebuembryo, sediada em Uberaba (MG), especializada na exportação de embriões zebuínos para África, Ásia, América do Sul e outras regiões no eixo tropical do planeta.