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31 de agosto de 2026 - 14:57h

A Folha Agrícola

Produtividade do agro cresce 80% e supera avanço da indústria no Brasil

A produtividade do trabalho na agropecuária brasileira avançou muito acima da registrada pela indústria nas últimas décadas, mostrando uma transformação importante na economia do país e no perfil das regiões que mais ganham eficiência.

Um estudo que analisou mais de 5,5 mil municípios brasileiros aponta que, entre 2002 e 2019, a produtividade do trabalho na agropecuária cresceu 80,1%. No mesmo período, a indústria avançou apenas 5,4%, enquanto a economia brasileira como um todo teve crescimento de 18,7%.

O levantamento foi realizado pelos pesquisadores Alan Bueno e Diogo Ferraz e utiliza informações de bases oficiais, incluindo Rais, Censos Demográficos e pesquisas domiciliares. Por se tratar de um pré-print, o estudo ainda não passou pela etapa final de revisão por pares.

Agro registra avanço muito acima dos demais setores

Os números mostram uma diferença significativa entre os principais setores da economia brasileira.

Entre 2002 e 2019, a produtividade do trabalho cresceu:

  • Agropecuária: 80,1%
  • Economia brasileira: 18,7%
  • Serviços: 10,3%
  • Indústria: 5,4%

O indicador utilizado mede a produtividade do trabalho, e não apenas o rendimento das lavouras por hectare. Portanto, o avanço de 80,1% não significa que a produção agrícola tenha aumentado na mesma proporção.

Entre os fatores que ajudam a explicar esse desempenho estão a mecanização, a adoção de novas tecnologias, o melhoramento genético, a profissionalização da gestão e a capacidade de produzir mais valor utilizando proporcionalmente menos mão de obra.

Novas fronteiras agrícolas ganham destaque

O levantamento também mostra uma mudança importante na geografia da produtividade brasileira.

Estados ligados à expansão da produção agropecuária aparecem entre os que tiveram os maiores avanços. O Piauí registrou crescimento de 103% na produtividade agregada entre 2002 e 2019, enquanto Maranhão avançou 86% e Tocantins, 69,7%.

Os três estados fazem parte do Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia que se tornou uma das principais áreas de expansão da produção de grãos no país.

Quando considerada especificamente a agropecuária, os números são ainda mais expressivos em alguns estados. No Piauí, a produtividade agrícola estimada cresceu 407,7% no período, enquanto Mato Grosso registrou avanço de 119,5%.

Os números não significam necessariamente que essas regiões tenham alcançado os maiores níveis absolutos de produtividade do país, já que parte do crescimento ocorre sobre uma base inicial menor. Ainda assim, o resultado demonstra a velocidade da transformação econômica provocada pelo avanço do agronegócio.

Indústria tradicional apresenta crescimento mais limitado

Enquanto regiões agrícolas ganharam eficiência, alguns dos principais centros industriais brasileiros registraram avanços modestos.

São Paulo apresentou crescimento estimado de apenas 1,2% na produtividade agregada entre 2002 e 2019. No Rio de Janeiro, o avanço ficou em aproximadamente 4%.

A diferença evidencia um dos desafios históricos da economia brasileira: transformar investimentos em capital, tecnologia e mão de obra em ganhos consistentes de produtividade na indústria.

Mecanização ganha força no campo

A transformação tecnológica do agronegócio também está diretamente relacionada à necessidade de produzir mais com menos trabalhadores.

A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada tem levado produtores a acelerar investimentos em máquinas, automação e ferramentas digitais.

Segundo levantamento citado pela publicação, 94,8% dos produtores entrevistados pela CNA relataram algum grau de dificuldade para contratar trabalhadores. Entre eles, 42,6% afirmaram ter antecipado investimentos em mecanização ou automação diante desse cenário.

Na prática, máquinas agrícolas mais modernas, sistemas de gestão, agricultura de precisão, monitoramento remoto e automação passam a ter papel cada vez maior dentro das propriedades.

Transformação vai além da porteira

O aumento da produtividade do campo também provoca efeitos sobre as economias locais.

O crescimento da produção agropecuária movimenta uma ampla cadeia formada por transporte, armazenagem, comércio, crédito, assistência técnica, máquinas, manutenção, tecnologia e serviços.

Com isso, municípios ligados ao agronegócio passam a concentrar novas atividades econômicas e oportunidades de geração de renda.

O fenômeno ajuda a explicar a ascensão de diversas cidades do interior, especialmente em regiões produtoras de grãos, onde o crescimento do agro impulsiona também setores que não estão diretamente ligados à produção rural.

Brasil ainda tem espaço para aumentar a produtividade

Apesar dos avanços registrados, os números mostram que ainda existe uma distância significativa entre a produtividade do trabalhador brasileiro e a observada em países de alta renda.

Dados apresentados pela CNA e pelo Cepea indicam que a produtividade agropecuária brasileira ficou em aproximadamente US$ 12,7 mil por trabalhador em 2024, equivalente a cerca de 43% da média dos países de alta renda. Nos Estados Unidos, o indicador supera US$ 80 mil por trabalhador.

Isso significa que o campo brasileiro avançou de forma expressiva, mas ainda enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, logística, conectividade rural, qualificação profissional e acesso à tecnologia.

O cenário, porém, evidencia uma mudança estrutural: o aumento da produtividade do agro está ajudando a deslocar parte do dinamismo econômico brasileiro para o interior do país.

Mais do que produzir mais, o desafio do agronegócio brasileiro será continuar aumentando a eficiência, incorporando tecnologia e transformando produtividade em renda e desenvolvimento para as regiões produtoras.

Fonte: estudo Missing the Productivity: Estimating Labor Productivity in Brazilian Municipalities (2002–2019), informações da CNA/Cepea e dados apresentados pela publicação Compre Rural.