Mais conectado, informado e criterioso, o produtor rural ganhou autonomia para pesquisar, comparar e escolher. Para quem vende ao agro, conhecer o produto continua importante — mas entender o negócio do cliente passou a ser decisivo.
Por Diogo Ferrari
Durante muito tempo, boa parte da informação sobre máquinas, insumos e tecnologias agrícolas chegava à propriedade pelas mãos de quem vendia. O representante apresentava o lançamento, levava o catálogo, explicava as características técnicas, informava o preço e construía a negociação. Em muitas regiões, concessionárias, cooperativas e revendas eram não apenas canais comerciais, mas também importantes portas de entrada para aquilo que havia de novo no mercado.
Essa realidade mudou — e rapidamente.
Em 2025, 88% dos domicílios rurais brasileiros já tinham acesso à internet, segundo o IBGE. Em 2016, eram 35%. A expansão das redes móveis, a maior disponibilidade de smartphones e, mais recentemente, o avanço da conexão via satélite reduziram uma barreira histórica entre campo e informação. O produtor que antes dependia da visita comercial hoje pode conhecer um lançamento pelo YouTube, acompanhar sua utilização em outra propriedade, consultar especificações no site do fabricante, comparar preços, conversar com outros produtores pelo WhatsApp, buscar opiniões nas redes sociais e até utilizar ferramentas de inteligência artificial para organizar informações antes de procurar um fornecedor.
Isso não tornou o vendedor desnecessário. Tornou desnecessário um determinado tipo de vendedor.
Se sua principal função era levar informação que o cliente não possuía, parte desse trabalho agora cabe no bolso do produtor. O catálogo está no celular. A ficha técnica está no site. O concorrente aparece em poucos segundos numa busca. Em determinados produtos, até o preço deixou de ser uma informação restrita ao balcão. O profissional comercial continua tendo um espaço importante nessa relação, mas seu valor começa a migrar de fornecedor da informação para intérprete da informação.
E essa diferença é muito maior do que parece.
Quando conhecer o produto deixou de ser suficiente
Uma empresa séria precisa treinar muito bem quem vende seus produtos. Conhecimento técnico continua sendo indispensável, principalmente num setor em que uma especificação errada pode comprometer uma safra, uma operação ou um investimento de centenas de milhares de reais. O problema é imaginar que conhecer profundamente o produto significa, automaticamente, saber qual produto o cliente precisa.
Uma situação que acompanhei no mercado de máquinas agrícolas ajuda a explicar essa diferença. Um produtor estava insatisfeito com uma plantadeira recém-adquirida. O equipamento apresentava falhas de plantio e a insatisfação já havia chegado ao ponto de se discutir sua devolução. Olhando a máquina isoladamente, não havia uma explicação evidente para tamanha frustração. Quando a análise passou da máquina para a propriedade, entretanto, o problema começou a fazer sentido.
A fazenda possuía áreas com relevo mais acidentado e elevada declividade. A plantadeira vendida não tinha chassi articulado e, naquelas condições, o conjunto de linhas tinha dificuldade para acompanhar adequadamente as variações do terreno. A questão não era simplesmente uma máquina ruim. Era uma configuração inadequada para aquela aplicação.
A alternativa encontrada foi substituir o equipamento por um modelo de chassi articulado, mais adequado às condições da propriedade. O produtor permaneceu com a marca e a situação foi resolvida. O episódio deixa uma lição comercial que continua atual: é possível vender um excelente produto e, ainda assim, fazer uma venda ruim.
Potência, capacidade hidráulica, número de linhas, tecnologia embarcada e capacidade operacional são fundamentais na venda de uma máquina. Mas não respondem sozinhos se ela é adequada. É preciso conhecer área, cultura, relevo, formato dos talhões, janela operacional, frota disponível e objetivo do cliente. Uma plantadeira maior pode proporcionar enorme capacidade operacional em uma propriedade e ser uma escolha inadequada em outra.
Na pecuária ocorre algo semelhante. Conhecer a composição de uma ração ou de um núcleo nutricional é importante, mas a recomendação só começa a ganhar valor quando o profissional procura entender quais animais serão alimentados, com que idade entram na propriedade, qual peso possuem, onde precisam chegar, quais forrageiras estão disponíveis, como a pastagem é manejada e qual é o objetivo econômico daquele sistema.
É justamente aí que uma mudança interessante começa a aparecer na relação comercial. O produtor mais informado nem sempre precisa de alguém que recite todo o portfólio disponível. Muitas vezes ele já pesquisou, conhece sua necessidade e chegou ao fornecedor com boa parte da decisão construída. O profissional que consegue avançar a conversa é aquele disposto a descobrir não apenas o que o cliente quer comprar, mas qual problema ele pretende resolver.
A decisão está cada vez mais dentro da fazenda
Essa transformação também modifica o peso das marcas. Elas continuam importantes. Reputação, histórico, confiança, qualidade, rede de atendimento e experiência anterior carregam valor e dificilmente deixarão de carregar. Mas a marca já não necessariamente conduz sozinha a decisão.
Uma pesquisa da McKinsey com mais de 750 produtores brasileiros em 11 estados encontrou 87% dos entrevistados atribuindo maior importância a preço, qualidade e desempenho do que a outros atributos, inclusive marca. Entre produtores com menos de 35 anos, apenas 9% indicaram a marca como o atributo mais importante na compra de insumos, ante 20% entre aqueles com mais de 65 anos.
Talvez esteja ocorrendo uma inversão importante. Em vez de a marca carregar o cliente até a decisão, é cada vez mais o cliente que constrói sua decisão e escolhe qual marca melhor atende aos critérios estabelecidos.
Na prática, esses critérios também vão muito além do menor preço. No agro brasileiro, condição comercial pode ser tão importante quanto a cifra apresentada na proposta. Prazo de pagamento, vencimento depois da safra, financiamento, entrega programada, disponibilidade de produto e necessidade de capital de giro interferem diretamente na escolha. Uma proposta com menor preço à vista não necessariamente é economicamente superior a outra que permite ao produtor alinhar desembolso e geração de receita.
O mesmo vale para a forma de comprar. Estudos recentes sobre o comportamento do produtor brasileiro mostram que os canais digitais ganharam espaço importante na jornada comercial, mas isso não significa que o campo esteja simplesmente migrando para um modelo de e-commerce. O WhatsApp tornou-se um canal relevante, pesquisas são realizadas digitalmente e informações circulam com enorme velocidade, enquanto confiança e aconselhamento personalizado continuam sendo fatores importantes para a decisão.
O produtor não necessariamente quer comprar tudo pela internet. Ele quer poder escolher como comprar.
Pode pesquisar on-line e fechar no balcão. Pode descobrir um produto numa rede social e negociar pelo WhatsApp. Pode pedir uma demonstração presencial e depois fazer a recompra digitalmente. Pode preferir receber o vendedor na propriedade ou considerar uma visita desnecessária naquela semana. Para grandes operações, pode haver ainda um departamento profissional de compras negociando contratos, condições e programação de fornecimento sem necessidade de sucessivas visitas presenciais.
O desafio para quem vende é estar presente sem transformar presença em interferência.
Sair do escritório para entender a operação
Durante muito tempo, relacionamento comercial no agro esteve associado à frequência de visitas. Estar perto do cliente continua sendo importante, mas proximidade não deveria ser medida apenas pelo número de vezes em que o vendedor sentou no escritório da fazenda.
Em algumas situações, uma manhã de visita comercial pode consumir um tempo que o produtor, gerente ou comprador simplesmente não possui. Em outras, uma hora acompanhando a operação no campo pode revelar mais sobre o cliente do que meses de conversas em uma sala.
Na comercialização de insumos para fenação, por exemplo, muitas vezes era mais útil conversar com o encarregado da operação, o tratorista ou o operador responsável pela movimentação dos fardos do que iniciar a visita diretamente pelo departamento de compras. Foi dessa observação operacional que, em determinada usina, apareceu um problema recorrente: fios utilizados em grandes fardos prismáticos não apresentavam especificação adequada para suportar as exigências daquela operação e havia rompimentos.
A conversa com o comprador, então, deixava de começar com “tenho um produto para vender”. Passava a começar com algo muito mais concreto: “Estive na operação de vocês, encontrei este problema e acredito que esta especificação possa resolvê-lo. Vamos testar?”
A diferença parece pequena, mas muda a natureza da relação.
Primeiro identifica-se o problema. Depois propõe-se uma solução. Testa-se. Mede-se o resultado. Se a aplicação funciona, constrói-se a proposta comercial. E, em vez de simplesmente colocar um grande volume de mercadoria no estoque do cliente, pode-se estruturar um programa de fornecimento com entregas ao longo do ano, ajustadas ao consumo da operação.
A venda deixa de ser apenas um pedido faturado e passa a incluir disponibilidade, estoque, logística, fluxo financeiro e continuidade operacional.
Produto ou solução?
Existe outro episódio, também no mercado de fenação, que mostra como a sofisticação de um produto pode ser confundida com adequação.
Um cliente havia adquirido uma enfardadora equipada com sistema de facas para corte da forragem e enfrentava dificuldades ao trabalhar com aveia destinada à alimentação animal. O equipamento possuía o recurso, portanto parecia natural utilizá-lo. Mas a pergunta mais importante naquele momento não era o que a máquina era capaz de fazer. Era para que aquele fardo seria utilizado e se aquela configuração fazia sentido para a operação.
Ao retirar o conjunto de facas do processo, o comportamento da máquina melhorou. E apareceu uma conclusão incômoda: talvez aquele produtor nem precisasse ter adquirido a configuração adicional.
Esse é um risco recorrente quando a venda começa pela ficha técnica. Mais recursos, maior potência, mais componentes ou maior sofisticação podem ser argumentos comerciais atraentes, mas não necessariamente representam maior valor para determinado cliente.
Uma empresa pode treinar um vendedor para conhecer cem características de um produto. Talvez a habilidade mais valiosa continue sendo saber quais cinco perguntas fazer antes de recomendá-lo.
O pós-venda começa antes da venda
Essa mudança fica ainda mais evidente em máquinas e tecnologias agrícolas. O produtor não compra apenas aquilo que o equipamento consegue fazer no dia da entrega. Compra também uma expectativa sobre o que acontecerá quando precisar de assistência.
Quanto tempo uma máquina ficará parada? Existe peça disponível? O diagnóstico será rápido? Há suporte técnico? Um software continuará recebendo atualizações? O problema será resolvido por quem vendeu ou o cliente começará uma peregrinação entre concessionária, distribuidor e fabricante?
Em operações com janelas curtas, máquina parada significa capacidade produtiva perdida. Por isso, pós-venda não deveria ser tratado como um departamento que entra em cena depois que o comercial termina seu trabalho. Ele faz parte do produto que está sendo vendido.
O mesmo raciocínio vale para insumos. Um defensivo precisa ser analisado não apenas pelo preço por litro, mas pela eficiência, posicionamento, residual, período de carência e adequação à operação. Uma rede para enfardamento precisa ser avaliada pelo que custa, mas também pelo desempenho no fardo, pelas perdas que evita e pela segurança operacional que entrega. Nutrição precisa ser confrontada com desempenho e custo do ganho adicional.
Quanto mais profissional se torna o produtor, menos sentido existe em separar completamente produto, serviço, assistência e resultado.
O cliente também deixou de ser um só
Há ainda outro desafio para empresas que atuam no agronegócio: falar em “cliente agrícola” como se existisse um único comportamento de compra.
O produtor que compra para sua própria fazenda possui necessidades diferentes de um prestador de serviços que depende da disponibilidade de suas máquinas para faturar. Uma cooperativa compra com outra lógica. Uma concessionária possui objetivos diferentes de uma revenda multimarcas. Grandes grupos agrícolas, empresas florestais e usinas podem contar com departamentos profissionais de suprimentos, contratos de fornecimento e processos de homologação que se aproximam muito mais de uma operação industrial do que da imagem tradicional da compra realizada no balcão.
Mesmo entre produtores semelhantes em área e faturamento, a jornada pode ser completamente diferente. Um prefere negociar pessoalmente. Outro delega compras. Um terceiro pesquisa tudo antes de procurar o fornecedor. Outro valoriza fortemente a recomendação da cooperativa ou do técnico. Há quem priorize preço, quem dependa de prazo e quem esteja disposto a pagar mais pela segurança de ter suporte imediato.
Por isso, segmentar o mercado apenas por hectares, faturamento, cultura ou região começa a parecer insuficiente. Essas variáveis continuam importantes, mas talvez seja necessário acrescentar uma pergunta: como esse cliente toma decisões?
O desafio se torna ainda maior em um país com a dimensão e diversidade agrícola do Brasil. Estratégias comerciais concebidas nacionalmente precisam sobreviver às diferenças de clima, cultura, tamanho das propriedades, calendário agrícola, disponibilidade de crédito e estrutura dos canais locais. Quando a atuação se amplia para a América Latina, entram ainda diferenças culturais, modelos de distribuição, estruturas de mercado e formas distintas de relacionamento entre produtor, canal e fabricante.
A estratégia pode ser global. A venda continua acontecendo localmente.
A venda acontece rápido. O cliente leva safras para ser construído
Talvez seja justamente aí que exista uma das maiores tensões do modelo comercial atual. Empresas trabalham com metas mensais, trimestrais e anuais. O cliente trabalha com ciclos produtivos.
O produtor que não precisa trocar o trator agora pode precisar daqui a duas safras. A propriedade que não compra determinada semente neste mês pode estar em outra cultura e voltar àquela demanda no próximo ciclo. Um cliente pode ter estoque suficiente de determinado insumo hoje e precisar de fornecimento programado alguns meses adiante.
Pressionar uma venda fora da hora pode produzir faturamento imediato. Também pode destruir confiança.
Construir um cliente exige outra noção de tempo. Significa acompanhar a operação mesmo quando não há pedido para fechar, entender o calendário produtivo, saber quando oferecer e também reconhecer quando não é hora de oferecer.
E existe uma responsabilidade das próprias empresas nessa transformação. Se o mercado exige profissionais capazes de construir relações durante anos, as organizações precisam aprender a reconhecer o valor desse trabalho. Relacionamento não pertence ao logotipo. Ele é construído por pessoas — vendedores, técnicos, supervisores, gerentes e profissionais de pós-venda que acumulam conhecimento sobre o cliente, conquistam confiança e se tornam referências quando surge um problema.
A venda pode acontecer em uma semana.
A parceria leva safras.
O produtor rural não deixou de precisar de quem vende. Talvez esteja acontecendo justamente o contrário. Quanto mais informação existe, maior pode ser o valor de alguém capaz de separar informação de conhecimento, especificação de aplicação, produto de solução e preço de resultado.
Mas esse espaço não pertence automaticamente à indústria, à concessionária, à cooperativa, à revenda ou ao vendedor que atende aquela região há muitos anos. Precisa ser conquistado em cada interação, em cada problema resolvido e, muitas vezes, também na capacidade de dizer ao cliente que ele não precisa comprar naquele momento.
O produtor mudou.
A informação chegou à fazenda. A comparação ficou mais fácil. A decisão ganhou novos critérios e novos canais. A próxima transformação, portanto, talvez não esteja do lado de quem compra.
Está do lado de quem ainda quer vender.
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Diogo Ferrari
Engenheiro Agrônomo | MBA em Gestão de Negócios – ESALQ/USP
Executivo de Agronegócios com atuação em gestão agropecuária, máquinas e tecnologia agrícola e desenvolvimento de mercados no Brasil e na América Latina.
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