fbpx

16 de setembro de 2026 - 13:48h

A Folha Agrícola

Tecnologia no campo ainda esbarra na distância entre inovação e realidade do produtor

Painel da Fundepag no Campinas Innovation Week reuniu pesquisadores, empresas e representantes do ecossistema de inovação para discutir os caminhos da agricultura do futuro

A distância entre o desenvolvimento de novas tecnologias e sua aplicação efetiva no campo ainda é um dos principais desafios para a transformação digital do agronegócio. O tema esteve no centro do painel “Agricultura do Futuro”, realizado na terça-feira (15/9), durante o Campinas Innovation Week 2026, em Campinas (SP). O encontro reuniu pesquisadores, empresas, instituições de pesquisa e representantes do ecossistema de inovação para discutir como tecnologias podem ser testadas, adaptadas e incorporadas às diferentes realidades da produção agrícola. 

A abertura foi conduzida pelo presidente do Conselho da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), Miguel Luiz Menezes Freitas. A programação foi dividida em três frentes: “Tecnologias de Futuro”, “Agricultura Digital Aplicada” e “Agricultura Regenerativa”, com discussões sobre inteligência artificial, robótica, conectividade, integração de dados, recuperação de solos e sistemas integrados de produção. 

Para Freitas, a aproximação entre pesquisa e aplicação prática está relacionada ao próprio trabalho das instituições de pesquisa. “A temática deste painel faz parte do trabalho contemporâneo das instituições de pesquisa. A Fundepag é uma ponte e sempre olha adiante, trazendo atualizações para um setor tão importante como a agricultura, que está em constante evolução”, afirmou. 

Tecnologia precisa ser validada no ambiente de produção 

No painel “Tecnologias de Futuro”, moderado pelo diretor-presidente da Fundepag, Álvaro Duarte, os participantes discutiram os critérios necessários para que uma tecnologia deixe o ambiente de desenvolvimento e passe a fazer parte da operação de uma propriedade rural. 

Participaram o professor associado I da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Daniel Albiero; o coordenador de Inovação e Marketing do AgNest Farm Lab, Allan Daher; e o gestor de Inovação e Linhas de Fomento do Parque Tecnológico de Sorocaba, Eugênio Brito. 

Daher destacou que a validação de uma tecnologia precisa considerar mais do que seu funcionamento técnico. “Um dos principais desafios que observamos é que a validação de uma tecnologia vai além de comprovar que ela funciona. É preciso entender se o produtor consegue utilizar a solução, se ela se integra à sua operação, se os dados gerados são realmente úteis para uma tomada de decisão e, principalmente, se existe geração de valor que justifique sua adoção”, afirmou. 

A discussão também abordou as diferenças entre os perfis de produção. Brito chamou atenção para a necessidade de considerar a agricultura familiar no desenvolvimento de novas tecnologias e apontou que soluções de menor custo podem ampliar o acesso de pequenos e médios produtores às ferramentas disponíveis. 

Albiero avaliou que a agricultura digital já faz parte da realidade brasileira e que as tecnologias podem ser utilizadas por diferentes perfis de produtores. Entre as possibilidades, citou o uso de robôs com inteligência artificial diante da redução da disponibilidade de mão de obra no campo. “Não digo que é a agricultura do futuro. Hoje é a agricultura atual”, afirmou. 

Os participantes destacaram ainda a necessidade de aproximar startups, produtores, empresas, pesquisadores e instituições para adaptar as soluções às condições encontradas no campo. 

Dados e conectividade ainda são gargalos 

No painel “Agricultura Digital Aplicada”, a discussão avançou sobre os obstáculos para transformar dados e tecnologias digitais em aplicações capazes de apoiar decisões na atividade agrícola. A moderação foi conduzida pelo consultor Agtech e professor das Faculdades Pecege, Harven e CNA, Ricardo Campo. 

Participaram o chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agricultura Digital, Júlio César Dalla Mora Esquerdo; o CEO e cofundador da SciCrop, José Damico; e o chefe da Divisão de Projetos, Análise e Qualificação de Componentes Eletrônicos do CTI Renato Archer, Wellington Romero de Melo. 

Campo destacou a necessidade de identificar os problemas enfrentados no campo antes de definir quais tecnologias devem ser aplicadas, além da capacidade de transformar informações em decisões. 

Damico chamou atenção para a organização dos dados dentro das empresas. Segundo ele, a disponibilidade de equipamentos e softwares não é suficiente quando não existe estrutura para armazenar, integrar e utilizar as informações. “Ainda existem empresas que não têm infraestrutura de dados e falta conhecimento. Esse é um dos principais gargalos. Pode-se ter o melhor hardware ou software, mas é preciso organizar os dados”, afirmou. 

Esquerdo e Melo abordaram ainda a dificuldade de ampliar soluções desenvolvidas em projetos-piloto. Diferenças de infraestrutura e de condições de produção entre regiões e perfis de produtores podem dificultar a adoção em maior escala. Nesse cenário, os participantes destacaram a necessidade de investimentos em capacitação e infraestrutura educacional para acompanhar a transformação tecnológica do setor. 

Recuperação do solo entra na agenda tecnológica 

A terceira frente do painel tratou de recuperação de áreas, saúde do solo e integração de sistemas produtivos. O painel “Agricultura Regenerativa” foi moderado pelo especialista de Parcerias e Inovação (Partnership and Innovation Lead) no Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi), Denys Eduardo Biaggi, e reuniu o sócio administrador da MPK Agrotech, José Eraldo Xavier Korczak; o coordenador do programa REVERTE, da Syngenta, Gabriel Moura; e o diretor de Projetos da Associação Rede ILPF, William Marchió. 

As discussões abordaram estratégias de manejo, monitoramento da produção, recuperação de pastagens degradadas e adoção da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Nesse contexto, os participantes relacionaram o uso de tecnologias e ferramentas de monitoramento à tomada de decisões e a ajustes nos sistemas produtivos. 

Marchió ressaltou a necessidade de aproximar as iniciativas de sustentabilidade dos produtores e destacou o papel da Associação Rede ILPF na formação de parcerias entre diferentes setores para levar soluções ao campo. 

Para Korczak, a agricultura regenerativa deve ser tratada como um princípio de manejo, considerando as diferentes condições encontradas na produção. Ele destacou a importância da proximidade com o produtor para compreender suas necessidades e avaliar como os benefícios das práticas podem alcançar os diferentes elos da cadeia. 

Moura defendeu a ampliação das iniciativas e a geração de mais dados sobre os resultados das práticas regenerativas. Ele citou como exemplo o Programa REVERTE®, da Syngenta, voltado à transformação de pastagens e áreas degradadas em áreas produtivas, com o objetivo de recuperar terras sem a necessidade de abertura de novas fronteiras de desmatamento. 

Conexão entre pesquisa e mercado 

Ao longo dos três painéis, as discussões convergiram para a necessidade de aproximar conhecimento científico, desenvolvimento tecnológico e condições reais de produção. Para Álvaro Duarte, essa conexão faz parte da atuação da instituição. 

“Participar da Campinas Innovation Week é uma oportunidade de discutir um tema que será cada vez mais determinante para o desenvolvimento do Brasil, que é a capacidade de transformar ciência, tecnologia e inovação em soluções para o futuro. A Fundepag atua em parceria com 16 instituições de ciência e tecnologia e, por isso, tem o papel de aproximar o conhecimento produzido nesses ambientes das empresas e da sociedade”, afirmou. 

O Campinas Innovation Week 2026 segue até 18 de setembro, em Campinas (SP), com programação dedicada a temas relacionados à inovação, tecnologia e negócios. 

Sobre a Fundepag  

A Fundepag foi criada em 1978, a partir dos esforços de grupos empresariais, representantes da agropecuária, da indústria, do comércio e das finanças para somar esforços do Estado e da iniciativa privada no desenvolvimento de projetos de pesquisa. 

Apoia e executa diversos tipos de projetos, serviços tecnológicos, capacitações e eventos. Oferece uma estrutura de apoio administrativo-financeiro, de gestão de pessoas, consultoria jurídica, ferramentas informatizadas, além de uma área voltada a novos negócios e inovação, com a qualidade e ética assessoradas pelas ISO 9001:2015 (qualidade), ISO 37301:2017 (compliance) e ISO 37001:2017 (antissuborno).  

Mais informações: https://portal.fundepag.br