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18 de setembro de 2026 - 10:49h

A Folha Agrícola

Canetas emagrecedoras geram oportunidade para o agronegócio

Popularização dos medicamentos tem mudado hábitos de consumo entre as pessoas, aumentando o interesse por alimentos naturalmente ricos em proteínas

A febre das canetas emagrecedoras não afeta só o corpo dos brasileiros. A mais nova tendência também está mudando o que parte significativa da população põe no carrinho de compras e no prato. Com o recuo no consumo de ultraprocessados e o alerta médico sobre a perda de massa magra durante o tratamento com os injetáveis, cresce a procura por alimentos in natura, ricos em proteína de alta qualidade e valor nutricional.

Esse cenário está atestado na recente pesquisa realizada pela Pluxee, empresa especializada em cartões de benefícios coorporativos. Segundo o levantamento com 1,2 mil usuários, 84% que utilizam as canetas emagrecedoras reduziram o consumo de industrializados, enquanto 83% diminuíram a ingestão de ultraprocessados e 57% passaram a priorizar fontes de proteína na alimentação. Essa mudança de hábito vai gerar oportunidades para a agropecuária paranaense, que já sente (e acompanha) o movimento.

“De queijarias a aviários, de pastagens a lavouras de cereais, as canetas emagrecedoras aceleram a transformação e a busca por uma alimentação saudável, que já vinha se desenhando nos últimos anos”, comenta o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Para a endocrinologista Bruna Cavalheiro, as canetas para emagrecimento modificam a relação da pessoa com o alimento. Isso porque os medicamentos atuam em regiões do cérebro responsáveis pelo controle da fome e mecanismos de recompensa relacionados à alimentação.

“Após iniciar o tratamento, o desejo por alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal diminui significativamente, facilitando escolhas alimentares mais saudáveis”, explica Bruna.

A médica ainda afirma que toda perda de peso promovida pelo uso das canetas envolve redução de gordura e também de alguma massa muscular, já que o músculo é reserva de energia. “Essa perda pode ser reduzida com estratégias como a ingestão adequada de proteínas ao longo do dia. Carnes magras, peixes, ovos, leite e derivados, leguminosas, são excelentes fontes, além de oferecerem outros nutrientes importantes”, comenta.

“Se o medicamento muda o apetite de milhões de brasileiros, o campo vai seguir se organizando para transformar esse movimento em um prato cheio de oportunidades. Os produtores rurais precisam estar preparados para aproveitar essa tendência, que é mundial e veio para ficar e agregar cada vez mais valor à produção”, reforça Meneguette.

Leite: soro que vale ouro

Na pecuária leiteira, o reflexo do novo padrão de consumo já reconfigura a cadeia. Nesse cenário, o soro do leite, até recentemente considerado um subproduto de baixo valor no processo de fabricação de queijo, ganhou status de produto nobre.

“Antes era um subproduto, depois virou um coproduto e hoje já é um produto mesmo. O soro (whey) praticamente triplicou de preço nos últimos dois anos”, diz Roger van der Vinne, produtor em Carambeí, nos Campos Gerais, e vice-presidente da Comissão Técnica (CT) de Bovinocultura de Leite do Sistema FAEP. O pecuarista mantém cerca de 450 vacas em lactação, com produção diária de 18 mil litros de leite.

Apesar das boas expectativas, segundo Vinne, os ganhos, principalmente financeiros, ainda devem demorar a chegar dentro das porteiras. “Essa mudança do consumo atinge primeiro a indústria para, só depois, chegar ao nível do produtor”, explica. “Depende da maturidade, tanto de o produtor entender que tem um produto na mão que vale ouro quanto de a indústria reconhecer que esse produto precisa ser valorizado. Precisamos amadurecer essa conversa”, avalia.

Em outros países o movimento já é mais visível nesta outra ponta. O Canadá e os Estados Unidos alteraram os índices genéticos usados para selecionar touros — o LPI canadense e o TPI americano —, dando hoje mais peso à proteína do que à gordura na avaliação.

“Antigamente, o peso da gordura e da proteína transmitido pelo touro para as filhas era praticamente o mesmo, ou até a gordura valia mais. Hoje já houve essa inversão”, afirma Vinne. Como boa parte dos touros usados no Brasil é selecionada com base nesses índices internacionais, o impacto já chega também à genética do rebanho nacional.

Corte: pasto como diferencial

A oportunidade gerada pela busca por proteína natural também chega à pecuária de corte. Na avaliação de Rodolpho Botelho, pecuarista e presidente da CT de Bovinocultura de Corte do Sistema FAEP e do Sindicato Rural de Guarapuava, o caminho para o produtor aproveitar passa por investir em técnicas que agreguem qualidade e sabor à carne. Botelho produz animais da raça Angus em Guarapuava, Turvo e Candói, com sistema de integração lavoura-pecuária, trabalhando recria e terminação de bezerros com foco em marmoreio e qualidade de carne.

Na pecuária de corte, o Brasil tem uma vantagem estrutural que pode ser mais bem explorada neste momento. O sistema de “produção a pasto” permite que os animais se alimentem diretamente da vegetação no campo. Nestes casos, quando o pasto é tratado com técnicas como adubação, manejo e integração lavoura-pecuária, a produtividade por hectare se torna extremamente eficiente. Essa qualidade, inclusive, já vem sendo reconhecida financeiramente pelos frigoríficos, que passaram a pagar mais tanto por esse tipo de manejo como pelo animal precoce.

“Os frigoríficos estão pagando preços diferenciados para produtores que trabalham com bem-estar animal, integração lavoura-pecuária e animais jovens, produzindo proteína de alta qualidade. Inclusive para exportação a mercados mais exigentes”, afirma Botelho. “O caminho é investir em manejo, precocidade e sistemas integrados para acessar a faixa de maior valor agregado, mesmo com o ciclo de engorda a pasto sendo mais longo do que em outras cadeias”, complementa.

O pecuarista de Guarapuava também vê espaço para o Brasil avançar em um mercado ainda pouco explorado internamente: o do grass-feed, quando o gado se alimenta exclusivamente de capim e forragens naturais, sem o uso de rações à base de grãos como milho ou soja. “Em boa parte do mundo, principalmente nos países mais capitalizados, a carne produzida a pasto tem a mesma qualidade do confinamento e é mais valorizada. No Brasil ainda não está acontecendo isso. Acho que é um dos próximos passos, à medida que o consumidor entende que a carne a pasto tem mais sabor”, avalia.

Para Botelho, o consumidor de maior renda já identifica e paga mais por animais criados com sustentabilidade e respeito aos ciclos naturais, comportamento que tende a se fortalecer com a busca por proteína de qualidade. “Existe um valor agregado dentro desse produto. Boa parte dos consumidores já entende isso e paga mais por uma proteína animal que tenha mais sabor e mais qualidade”, conclui

Avicultura: portfólio pronto

“Já observávamos uma tendência de valorização das proteínas consideradas saudáveis antes do Mounjaro e do Ozempic. Acredito que as canetas emagrecedoras aceleraram esse movimento e reforçam uma tendência de consumo voltado à saúde”, pondera Marcos Junges, avicultor em Missal, no Oeste do Paraná, produtor de frangos de corte em sistema de integração.

De família de pioneiros na atividade, Junges produz 37 mil aves por lote, distribuídas em dois aviários. Segundo ele, a diversificação do setor avícola já vinha acontecendo para atender às novas exigências dos consumidores. Exemplos deste movimento são os ovos enriquecidos com ômega 3, vitamina D e selênio, ovos orgânicos e as linhas premium de frango com alimentação 100% vegetal e sem uso de antibióticos. “A questão das canetas emagrecedoras chegou quando a avicultura já estava preparada. Isso foi muito bom”, avalia.

Para o produtor, frango e ovo se tornaram aliados justamente pelo efeito das canetas sobre o apetite. “Nutricionistas recomendam esses dois alimentos de alto valor biológico, que promovem saciedade e ajudam na preservação da massa muscular durante o emagrecimento, com ótimo custo-benefício”, diz. “Esse movimento tem potencial para ser sustentável no longo prazo.”

Grãos: novo valor agregado

A mudança de hábito alimentar também chega às lavouras, ainda que em ritmo mais discreto. Porém, tratando-se de grãos, os sinais são claros de que a tendência veio para ficar, como constata o produtor Ivo Arnt, que cultiva aveia, cevada, milho, soja e trigo mourisco no município de Tibagi, além de integrar a Comissão Técnica de Cereais, Fibras e Oleaginosas do Sistema FAEP. Sua propriedade é uma das poucas no Brasil com certificação internacional para produção de alimentos.

“O aumento ainda não é significativo a ponto de aparecer nas estatísticas. Mas existe, principalmente para a aveia, que vai para as barras de cereais, e para a proteína de soja. Sentimos uma procura maior neste ano”, relata Arnt.

Segundo o agricultor, o movimento por alimentos mais naturais já vem em crescimento gradual há uma década, impulsionado pela cultura das academias e por dietas voltadas à saúde. A popularização das canetas emagrecedoras proporcionou um novo capítulo.

O produtor menciona, ainda, uma mudança de perfil de consumidor: a aveia, que antes era associada a idosos e papinhas infantis, hoje é consumida majoritariamente por um público mais jovem, em barrinhas proteicas e panquecas fit. Por outro lado, Arnt diz notar queda no consumo de trigo. “Quem está emagrecendo com as canetinhas não está mais consumindo pão, macarrão e bolacha. Está consumindo mais aveia, trigo mourisco (que é sem glúten) e proteína de soja”, afirma.

Para Arnt, a oportunidade está diretamente ligada à capacidade de o produtor sair da lógica apenas da produção commodity e buscar profissionalização, diversificação da produção e parcerias com a indústria de alimentos — como ele mesmo já faz com empresas como Nestlé e Mãe Terra.

“Existe uma remuneração diferenciada para a aveia de qualidade, certificada e produzida com sustentabilidade. Tem valor agregado”, explica. Para comprovar esses processos, certificações, como a fornecida pela Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS, sigla em inglês), de sustentabilidade internacional, e a Regenera, voltada à agricultura regenerativa, funcionam como porta de entrada para mercados mais exigentes e rentáveis, sobretudo o europeu. “O consumidor desses produtos busca isso no rótulo, na gôndola do supermercado. Esse mercado existe e vai continuar a crescer”, conclui Arnt.

faep

Document

Cotações Agrícola

Milho

R$ 69,02

Soja

R$ 133,99

Trigo

R$ 79,61

Feijão

R$ 143,36

Boi

R$ 306,40

Suíno

R$ 7,88

Leite

R$ 2,74

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