Aymée Pegorini Belleboni *
O agronegócio brasileiro, tradicionalmente reconhecido como motor da economia nacional, vive um momento de mudanças de rumo. O que antes era um setor primário, voltado à produção de commodities, agora desponta como protagonista de uma nova agenda voltada à inovação. Essa virada é uma resposta direta a pressões globais, como mudanças climáticas, exigências ambientais cada vez mais rigorosas e a necessidade de ganho de produtividade para competir em mercados internacionais.
O movimento recente de busca por linhas de crédito para projetos inovadores no campo, principalmente via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos – empresa pública que atua mais fortemente estimulando a tecnologia e a inovação na indústria nacional -, e também via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Economico e Social), é sinal claro de uma maturidade crescente do setor.
Empresas do agronegócio reconhecem que, sem investimento em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, e sem a incorporação de práticas sustentáveis, não conseguirão manter sua relevância e competitividade. O papel de consultorias especializadas na estruturação e captação de recursos junto às instituições citadas se torna, nesse contexto, estratégico.
Há um volume expressivo de projetos aprovados e recursos captados. De 2023 a 2025, por exemplo, mais de R$ 27,3 bilhões em linhas de crédito foram liberadas pela Finep para cerca de 300 projetos, sendo que a Martinelli Fincorp foi responsável por intermediar cerca de 15% dos recursos para 44 projetos, especialmente do agronegócio. Isso demonstra a demanda reprimida por inovação, a eficácia de mecanismos públicos de fomento quando bem direcionados e o trabalho realizado pelas consultorias, já que as linhas de crédito são ótimas oportunidades, mas exigem um processo complexo para acessá-las.
A atuação das consultorias vai desde a realização do diagnóstico do negócio da empresa e de suas necessidades, até a montagem do plano estratégico de inovação. O trabalho inclui orientar sobre o que pode ser apoiado pelas instituições de fomento e quais as linhas de crédito mais adequadas, além de buscar o melhor enquadramento em relação à taxa de juros.
Fazer as recomendações que permitirão viabilizar o financiamento, ou mesmo avaliar as alternativas possíveis nos casos em que a empresa não se enquadra nas exigências para a obtenção dos recursos, incluindo aproveitamento de incentivos fiscais, reestruturação de dívidas e mercado de capitais, também fazem parte do trabalho.
A redução do custo do crédito, em comparação ao sistema bancário tradicional, tem sido um diferencial fundamental, ampliando o acesso de empresas de diferentes portes a recursos essenciais para a modernização ou atualização de seus processos.
Vale destacar que a inovação no agronegócio não se limita à adoção de drones ou à automação de etapas da produção. Trata-se de um processo amplo, que busca garantir um bom desempenho da safra, que abrange desde a pesquisa de novas culturas mais resistentes até a implementação de cadeias produtivas baseadas em bioeconomia e sustentabilidade.
O lançamento de editais específicos para projetos ligados à biodiversidade amazônica, energias renováveis e fundos de investimento em bioeconomia revela um alinhamento entre as políticas públicas e as demandas do setor produtivo, algo fundamental para alavancar o desenvolvimento sustentável.
Em um cenário de concorrência internacional acirrada, especialmente com países como a China, e diante da agenda ESG que pauta o acesso a mercados e capitais, o Brasil precisa consolidar de vez a cultura da inovação no campo. Não se trata apenas de responder a pressões externas, mas de enxergar a sustentabilidade como oportunidade de geração de valor, diferenciação de produtos e construção de uma reputação positiva para o agronegócio.
Contudo, é preciso avançar na desburocratização dos processos de acesso ao crédito, ampliar a capacitação técnica dos produtores e garantir a continuidade dos investimentos em inovação. O agronegócio brasileiro já demonstrou sua capacidade de adaptação e superação de desafios e, agora, tem diante de si a chance de liderar uma revolução verde baseada em ciência, tecnologia e compromisso com o futuro.
O caminho está assentado com o crédito de fomento, aliado à expertise técnica e ao engajamento dos atores do setor, incluindo as consultorias, que podem transformar a paisagem rural e consolidar o Brasil como referência mundial em produção sustentável e inovadora.
(*) Aymée Pegorini Belleboni é Head de Finanças Corporativas da Martinelli Fincorp