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23 de junho de 2026 - 14:58h

A Folha Agrícola

Solo como ativo estratégico: como o diagnóstico do sistema de produção transforma a fazenda em negócio lucrativo

No agronegócio brasileiro, muito se fala em tecnologia, genética, mercado de commodities e gestão financeira. Mas existe um ativo que precede todas essas discussões, que não pode ser trocado, transferido ou replicado: o solo. Ele é o único recurso da fazenda que permanece fixo independentemente de qual cultura o produtor decida explorar.

Essa foi uma das premissas centrais do mais recente episódio do Podcast Fazenda Lucrativa, do Rehagro, que recebeu Victor Monseff, engenheiro agrônomo, produtor de café e CEO do laboratório 3r ribersolo. Em uma conversa densa e rica em insights práticos, Victor compartilhou sua visão sobre como o diagnóstico confiável do solo é um dos pilares fundamentais para transformar uma propriedade rural em um negócio verdadeiramente lucrativo e resiliente.

Neste artigo, compilamos os principais ensinamentos dessa conversa para produtores, gestores, técnicos, consultores, sucessores e investidores do agronegócio que buscam elevar o patamar de suas operações com base em dados sólidos e metodologia comprovada.

Por que o solo precisa ser tratado como investimento e não como custo?

É muito comum que produtores rurais listem em seu planejamento de safra todos os insumos, sementes, hora-máquina e defensivos, mas deixem de fora o diagnóstico do solo. Essa visão, segundo Victor, é um dos erros mais custosos que um gestor rural pode cometer.

Ao contrário de máquinas, estoques ou culturas, o solo não pode ser substituído. Ele é o substrato permanente de qualquer atividade agrícola ou pecuária. Um produtor pode mudar do café para o milho, pode encerrar a pecuária e abrir uma lavoura de soja, pode renovar toda a sua frota, mas o solo continuará ali, exigindo atenção, manejo e, acima de tudo, diagnóstico correto.

Quando colocamos isso em perspectiva econômica, o raciocínio é claro: investir em diagnóstico de solo representa, em média, menos de 1% do investimento total em adubação de uma safra. Em contrapartida, a ausência desse diagnóstico pode levar a decisões incorretas de correção e adubação que comprometem toda a margem operacional.

O agronegócio brasileiro tem apenas 50 anos de manejo de solo

Outro ponto fundamental trazido no podcast é o contexto histórico do solo tropical brasileiro. Enquanto produtores europeus trabalham a mesma área há centenas de anos e consideram “nova” uma gleba com 50 anos de histórico, o Brasil começou a discutir e manejar o cerrado apenas na década de 1970.

Isso significa que, em termos de acúmulo de conhecimento, o agronegócio brasileiro ainda está na fase inicial de compreensão profunda de seus solos tropicais. Essa condição não é uma fraqueza, é uma oportunidade gigantesca para quem se dispõe a construir esse histórico de dados de forma sistemática e confiável.

Da análise química ao diagnóstico do sistema de produção

Durante muito tempo, a análise de solo se resumia a receber um saquinho de terra e receber de volta uma planilha cheia de números. Esse modelo, embora tenha sido revolucionário em seu tempo, está sendo superado por uma abordagem muito mais ampla: o diagnóstico de sistema de produção.

Victor utiliza uma analogia certeira: assim como no futebol, para sair da segunda divisão para a primeira basta olhar a fertilidade química do solo nas camadas tradicionais (0-20 e 20-40 cm). Mas para chegar à final do campeonato é preciso ir além.

Os três pilares do diagnóstico completo

O diagnóstico completo do sistema de produção avalia o solo sob três dimensões complementares, que, quando integradas, permitem decisões muito mais assertivas:

Pilares do diagnóstico completo do solo

Uma das reflexões mais importantes do episódio é sobre como recomendamos insumos por hectare (unidade de área), mas a planta explora o solo em volume. Esse descompasso faz com que decisões de adubação ignorem o perfil profundo do solo, onde muitas vezes existem reservas ou limitações críticas.

Quando o produtor passa a enxergar o solo como um volume a ser diagnosticado, abre-se uma nova dimensão de eficiência agronômica e financeira.

Dados confiáveis: o alicerce de qualquer decisão rentável

De nada adianta ter o melhor laboratório do Brasil se a amostra de solo foi mal coletada. Esse é um dos pontos mais críticos levantados por Victor: a qualidade da análise depende, antes de tudo, da qualidade da amostragem.

O processo começa no campo, com a escolha dos pontos de coleta, a profundidade correta, o uso adequado dos equipamentos e a padronização do processo. Erros na amostragem não são corrigíveis pelo laboratório, eles simplesmente geram dados errados, que por sua vez geram decisões erradas.

Por isso, o 3r ribersolo tem investido fortemente em treinamentos de equipes de coleta e na orientação de consultores sobre os pontos de erro mais comuns. O objetivo é garantir que o dado que chega ao laboratório seja representativo do campo real.

Histórico de dados

Um dos diferenciais mais poderosos das fazendas que operam em nível de excelência é ter um histórico confiável de dados ao longo dos anos. Esse histórico permite ao produtor tomar decisões com segurança mesmo em cenários de incerteza, como os de alta volatilidade nos preços de fertilizantes.

Um exemplo prático citado no episódio: quando os preços de insumos disparam (como em cenários de conflitos geopolíticos que afetam fertilizantes), o produtor com histórico de dados pode “queimar estoque”, ou seja, reduzir a dose de adubação com base no diagnóstico de reservas acumuladas no solo sem comprometer significativamente a produtividade. Sem esse histórico, a mesma decisão se torna um tiro no escuro.

A diferença entre cortar e racionalizar

Existe uma distinção fundamental que o episódio deixa muito clara: cortar adubação sem embasamento técnico é um risco; racionalizar o uso de insumos com base em diagnóstico é inteligência de gestão. O produtor que confunde esses dois conceitos pode economizar no curto prazo e perder competitividade no médio e longo prazo.

A racionalização consciente pode simultaneamente reduzir custos e aumentar a produtividade. Essa é a fazenda lucrativa na prática.

Silagem de milho e pecuária leiteira: um ciclo integrado

A fusão entre o 3rlab e a Ribersolo uniu dois mundos que, na prática das fazendas, raramente se comunicam: o diagnóstico de solo e a análise de silagem/nutrição animal. Segundo Victor, essa separação é artificial e prejudica a performance das fazendas leiteiras.

O processo é único: o solo define a qualidade da forrageira, a forrageira define a qualidade da silagem, a silagem define a nutrição da vaca, e a nutrição da vaca define a produtividade do leite. Quando cada elo dessa cadeia é gerenciado de forma isolada, perdem-se oportunidades de otimização e aumenta-se o risco de decisões inconsistentes.

A grande evolução observada na pecuária leiteira brasileira nos últimos anos tem como um de seus pilares principais a melhoria da qualidade da forragem, viabilizada justamente por laudos confiáveis de análise de silagem e por um manejo agronômico mais rigoroso das lavouras de milho.

Sustentabilidade, solo e mercado de carbono

O Brasil ocupa uma posição única no mundo: é possível avançar simultaneamente na agenda ambiental, social e econômica sem que essas dimensões se conflitem. Em países de clima temperado, frequentemente a sustentabilidade concorre com a produtividade. Nos trópicos brasileiros, com o manejo correto, elas convergem.

Quando um produtor investe em construção de perfil de solo, em aprofundamento radicular e em atividade biológica, ele automaticamente aumenta o aporte de carbono no sistema, melhora a resiliência da lavoura a eventos climáticos extremos e reduz a dependência de insumos externos. Esses resultados atendem, ao mesmo tempo, à lógica da fazenda lucrativa e à lógica da sustentabilidade.

Projetos de carbono: foco no agronômico antes do mercadológico

Victor traz uma perspectiva equilibrada sobre o mercado de carbono: em vez de correr atrás dos créditos, o produtor deve focar primeiro em fazer boas práticas agronômicas. O resultado em carbono sequestrado virá como consequência natural.

A preocupação com o enquadramento em projetos de carbono não deve preceder a atenção ao diagnóstico e ao manejo correto do solo. Na prática, o produtor que segue as boas práticas estará automaticamente posicionado para surfar qualquer onda regulatória ou mercadológica relacionada à sustentabilidade.

O futuro do diagnóstico: inteligência artificial e central de dados agronômicos

Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial e análise de dados, surge uma oportunidade extraordinária para o agronegócio: transformar grandes volumes de dados de qualidade em recomendações cada vez mais precisas e personalizadas.

A ressalva de Victor é essencial: a IA potencializa o que é bom e amplifica o que é ruim. Dados de baixa qualidade processados por algoritmos sofisticados apenas geram erros em escala. Por isso, o investimento em qualidade analítica, desde a coleta até o laudo, continua sendo o passo mais importante.

Conclusão

A mensagem central do episódio com Victor Monseff pode ser resumida em uma frase que o próprio podcast Fazenda Lucrativa adota como filosofia: lucro não é sorte, é método. E um dos elementos mais críticos desse método é o diagnóstico confiável do sistema de produção, com o solo como ponto de partida.

Para o produtor que deseja dar o próximo passo, Victor deixa duas recomendações objetivas: primeiro, inclua o diagnóstico no seu planejamento de safra, não como custo extra, mas como investimento na base de todas as suas decisões. Segundo, faça bem feito o que se dispôs a fazer. Adotar meia tecnologia ou contratar o prestador mais barato sem critério técnico é pior do que não adotar nada.

O agronegócio brasileiro tem diante de si uma janela de oportunidade única: solos tropicais com enorme potencial inexplorado, tecnologia de diagnóstico em aceleração, inteligência artificial disponível para processar dados e uma agenda de sustentabilidade que, quando bem executada, converge com a lucratividade. Quem construir seu histórico de dados hoje estará décadas à frente amanhã.

O solo é o ativo mais valioso da sua fazenda. Mas dados sem gestão não geram lucro

Você aprendeu neste artigo que o diagnóstico correto do solo é o ponto de partida para decisões mais rentáveis. O próximo passo é transformar esse e outros dados em uma estratégia de gestão completa.

É exatamente isso que a Pós-graduação em Gestão de Fazendas Lucrativas do Rehagro entrega, com professores que são consultores que atendem mais de 400 fazendas em todo o Brasil.

Artigo Equipe REHAGRO