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22 de setembro de 2026 - 16:47h

A Folha Agrícola

Artigo: Antes do indicador, é preciso entender a operação

Piquetes, animais, máquinas, lavouras e pessoas produzem informações todos os dias dentro de uma propriedade. O desafio da gestão não é simplesmente ter mais dados ou ferramentas, mas transformar aquilo que acontece no campo em métricas capazes de revelar gargalos, orientar decisões e melhorar resultados.

Uma propriedade rural pode ter pastagens bem formadas, lavoura produtiva, máquinas adequadas, bons animais e uma equipe experiente e, ainda assim, conviver diariamente com perdas de eficiência que dificilmente aparecem de maneira isolada. Um deslocamento mais longo do que deveria, uma porteira mal posicionada, uma máquina esperando abastecimento, um lote que demora mais para ser manejado ou uma produção agrícola que parece eficiente quando analisada sozinha, mas se torna cara quando transformada em alimento para o gado.

São acontecimentos aparentemente pequenos. O problema é que muitos deles se repetem dezenas, centenas ou milhares de vezes durante um ano.

É nesse ponto que medir deixa de ser burocracia e passa a fazer parte da produção.

Nos últimos anos, o agronegócio ampliou enormemente sua capacidade de gerar dados. Máquinas conectadas, GPS, telemetria, balanças eletrônicas, identificação animal, softwares de gestão, aplicativos, sensores e painéis permitem acompanhar uma quantidade crescente de variáveis. Mas existe uma etapa anterior à escolha da tecnologia que merece atenção: entender o que realmente precisa ser medido dentro daquela operação.

Porque uma fazenda pode produzir muitos dados e, ainda assim, conhecer pouco sobre os próprios gargalos.

Uma porteira também pode produzir informação

Pense em uma propriedade de pecuária que trabalha com divisão de pastagens e pastejo rotacionado. É natural acompanhar lotação, ganho de peso, condição das pastagens, períodos de ocupação e descanso dos piquetes. São indicadores importantes.

A própria literatura técnica mostra, entretanto, que dividir uma pastagem em piquetes não garante, por si só, um sistema eficiente. O dimensionamento precisa considerar fatores como quantidade e peso dos animais, produção de forragem, período de ocupação e descanso, entre outras variáveis. Em outras palavras, a estrutura física é apenas parte do sistema.

E a operação acontece também entre esses números.

Quanto tempo é necessário para retirar um lote de um piquete e levá-lo ao seguinte? Quantas pessoas participam? Qual distância os animais percorrem? O corredor facilita o fluxo ou cria pontos de dificuldade? A localização das porteiras ajuda ou obriga a equipe a realizar movimentos desnecessários? Os bebedouros estão posicionados de maneira coerente com a divisão das áreas? Quantas vezes determinada atividade precisa ser repetida durante o mês?

Uma porteira mal posicionada parece um detalhe quando observada uma única vez. Se acrescentar alguns minutos a uma operação realizada diariamente ou semanalmente durante anos, deixa de ser detalhe.

O mesmo vale para um corredor, um cocho, um bebedouro, uma estrada interna ou a distância entre determinada estrutura e o local onde a atividade acontece.

A partir do momento em que tempo, distância, frequência e quantidade começam a ser registrados, aquilo que antes era apenas uma percepção da equipe passa a ser comparável.

E aquilo que pode ser comparado começa a oferecer condições para ser melhorado.

Na propriedade mista, uma atividade não termina onde começa a outra

Essa discussão ganha ainda mais importância em propriedades que combinam agricultura e pecuária.

Uma fazenda pode produzir soja, milho, pastagens e animais dentro da mesma operação. Em determinados sistemas, parte do milho produzido pode retornar à própria propriedade na forma de grão, silagem ou ingrediente da dieta. Máquinas podem atender mais de uma atividade. Funcionários, estradas, oficinas, estruturas de armazenagem e capital também podem ser compartilhados.

O problema aparece quando cada setor é analisado isoladamente.

A lavoura pode apresentar boa produtividade de milho por hectare. A pecuária pode apresentar bom ganho de peso. A estrutura de alimentação pode cumprir a quantidade programada. Individualmente, os indicadores parecem positivos.

Mas o conjunto está produzindo o melhor resultado possível?

Entre plantar o milho e transformá-lo em ganho animal existem insumos, operações agrícolas, colheita, transporte, armazenagem, processamento, distribuição, consumo e conversão. Em cada uma dessas etapas existem tempo, custo, perdas e capacidade operacional.

Por isso, o indicador mostra uma parte da operação. A decisão precisa enxergar o sistema.

Essa é uma das dificuldades das propriedades mais diversificadas. A integração pode trazer importantes benefícios agronômicos, produtivos e econômicos, mas também aumenta a quantidade de relações que precisam ser compreendidas. Agricultura e pecuária deixam de ser apenas duas atividades existentes dentro da mesma propriedade e passam a funcionar como partes de uma mesma empresa.

O dado isolado pode contar uma história incompleta

Um dos exemplos mais conhecidos na pecuária é o ganho médio diário.

O GMD é um indicador importante para acompanhar o desempenho animal. Mas até um bom indicador precisa ser interpretado dentro do período e das condições em que foi produzido.

Variações de consumo e enchimento gastrointestinal, manejo, disponibilidade de água e alimento e outras condições podem interferir em leituras de curto prazo. Dependendo da pergunta que se pretende responder, analisar um período mais longo ou determinado ciclo pode ser mais útil do que reagir a cada oscilação observada.

Isso não significa que uma medição esteja certa e outra errada. Significa que métricas diferentes respondem perguntas diferentes.

Nas máquinas ocorre algo semelhante.

Uma plantadeira pode apresentar excelente capacidade durante uma hora efetivamente trabalhada. Mas, quando se observa o dia inteiro, aparecem abastecimentos, deslocamentos, regulagens, manutenções e períodos de espera. A capacidade instantânea pode ser excelente enquanto a eficiência operacional diária permanece abaixo do esperado.

Qual informação deve orientar a decisão?

Depende daquilo que se pretende melhorar.

Se o problema estiver na capacidade da máquina, um indicador será necessário. Se estiver no abastecimento, será outro. Se estiver na logística interna, talvez o equipamento sequer seja o gargalo.

É justamente por isso que simplesmente acumular indicadores não significa administrar melhor.

Antes do painel, vem a pergunta

É comum que a transformação digital no campo seja associada imediatamente a sistemas, sensores, inteligência artificial, telemetria ou painéis de gestão. Todas essas ferramentas possuem enorme potencial e fazem parte de uma agricultura e de uma pecuária cada vez mais tecnificadas.

Mas nenhuma delas elimina uma pergunta bastante simples:

O que estamos tentando entender?

Se o problema é o tempo excessivo para movimentar animais, pode ser necessário medir tempo, distância, quantidade de pessoas e frequência da operação. Se a dúvida está na eficiência de uma máquina, entram capacidade, horas efetivamente trabalhadas, paradas, manutenção, consumo e rendimento. Se o objetivo é melhorar desempenho animal, peso precisa conversar com alimentação, categoria, pastagem, período e custo.

Somente depois dessa definição faz sentido escolher a ferramenta.

Pode ser um sistema sofisticado de telemetria. Pode ser um software de gestão pecuária. Pode ser uma balança integrada. Pode ser um aplicativo no celular. E, em determinadas situações, o primeiro diagnóstico pode começar com algo tão simples quanto um cronômetro, um formulário e uma planilha.

Não é o Power BI que transforma uma fazenda em uma operação orientada por dados. A ferramenta apenas organiza e apresenta aquilo que alguém decidiu medir e conseguiu transformar em informação.

Essa distinção é importante porque existe o risco de digitalizar uma operação antes de compreendê-la. Nesse caso, a tecnologia pode tornar muito eficiente justamente a produção de informações que pouco ajudam a decidir.

Transformar percepção em métrica é uma competência de gestão

Talvez uma das tarefas mais difíceis seja converter aquilo que as pessoas percebem no campo em algo que possa ser analisado.

“Esse lote deu mais trabalho.”

“Aquela máquina rende melhor.”

“Esse piquete está suportando mais animais.”

“Essa operação está demorando demais.”

Todas essas frases carregam informação. Mas ainda são percepções.

O passo seguinte é perguntar: como transformar essa percepção em algo comparável?

Pode ser tempo. Pode ser rendimento por hora. Pode ser quantidade por hectare. Pode ser uma escala de avaliação construída com critérios objetivos. Pode ser produção diária, semanal ou mensal. Pode ser custo por operação, consumo por animal ou frequência de ocorrência.

O importante é que os critérios sejam suficientemente claros para que situações semelhantes possam ser avaliadas novamente no futuro.

Quando isso acontece, a propriedade começa a construir histórico.

E histórico é uma das matérias-primas mais importantes da gestão, porque permite identificar padrões que dificilmente aparecem na observação de um único dia.

Pessoas também fazem parte da eficiência operacional

Nenhuma discussão sobre eficiência de uma fazenda estaria completa olhando somente para máquinas e animais.

São pessoas que identificam alterações no comportamento de um lote, percebem uma pastagem diferente, regulam uma máquina, conduzem os animais, abastecem equipamentos, registram ocorrências e tomam milhares de pequenas decisões diariamente.

Por isso, medir uma operação não deveria significar simplesmente controlar pessoas.

Significa compreender como pessoas, animais, máquinas, estruturas e processos interagem.

Uma atividade que exige três funcionários talvez possa ser reorganizada para dois. Em outra situação, reduzir uma pessoa pode aumentar o tempo, o risco ou o desgaste e acabar custando mais. Uma máquina maior pode aumentar capacidade, mas exigir uma logística de abastecimento que a fazenda não possui. Um novo piquete pode melhorar o aproveitamento da pastagem, mas aumentar demais o deslocamento até a água.

O resultado raramente está em uma única peça.

Está na forma como as peças funcionam juntas.

Telemetria não começa no sensor

Talvez seja essa uma das principais mudanças de pensamento necessárias quando se fala em dados no campo.

Telemetria não deveria começar pela compra do sensor.

Deveria começar pela compreensão da operação.

Primeiro se observa. Depois se identifica aquilo que precisa ser conhecido. Em seguida, registra-se. Os registros são classificados, comparados e transformados em métricas. Com histórico suficiente, começam a surgir padrões. E são esses padrões que ajudam a identificar gargalos e oportunidades de melhoria.

Em uma sequência simples:

operação → registro → classificação → métrica → comparação → decisão → melhoria.

Quanto mais complexa for a propriedade, maior tende a ser o valor dessa organização. Em operações mistas, nas quais lavoura, pecuária, máquinas, produção de alimentos e equipes dividem recursos e decisões, enxergar apenas cada atividade separadamente pode esconder justamente os pontos onde uma interfere na eficiência da outra.

A tecnologia pode acelerar enormemente esse processo. Automatizar registros reduz trabalho manual, telemetria aumenta a capacidade de acompanhamento, sistemas integram informações e ferramentas analíticas permitem encontrar relações que dificilmente seriam percebidas olhando cada dado separadamente.

Mas nenhuma tecnologia substitui a primeira etapa.

É preciso entender a operação.

Antes de perguntar qual software comprar, qual painel montar ou qual indicador acompanhar, talvez exista uma pergunta mais importante:

O que realmente precisamos compreender sobre aquilo que acontece todos os dias dentro da fazenda?

Porque melhorar uma operação não começa necessariamente com mais tecnologia.

Muitas vezes começa quando aquilo que sempre aconteceu no campo deixa de ser apenas rotina e passa a ser informação para decidir melhor.


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Sobre o autor

Diogo Ferrari

Engenheiro Agrônomo | MBA em Gestão de Negócios ESALQ/USP

Executivo e Consultor Estratégico do Agronegócio | Negócios, Desenvolvimento e Crescimento de Mercado

Vendas, Comercial, Estratégia e Operações | Gestão Agrícola | Brasil e América Latina | Colunista de Agronegócio

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