Impulsionado pelo aumento desordenado da oferta e por cobranças tributárias retroativas, o déficit de R$ 1,18 por quilo de animal ameaça a sobrevivência das granjas
O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, alertou para a grave crise financeira que atinge os produtores do estado. Apesar de Santa Catarina manter a excelência mundial em sanidade e bater recordes de exportação, o suinocultor amarga prejuízos devido à disparidade entre o alto custo de produção, a baixa remuneração repassada pela indústria e o excesso de oferta de carne no mercado.
Atualmente, o custo para produzir um quilo de suíno atinge a marca de R$ 6,23, enquanto o produtor recebe em média apenas R$ 5,05. Esse déficit inviabiliza a continuidade da atividade nas propriedades rurais, do Sul ao Extremo-Oeste catarinense. “Nós pensávamos que tinha chegado ao fundo do poço, mas infelizmente descobrimos que estamos encontrando alguns alçapões que estão levando cada vez mais nós para esse fundo, onde a margem de lucro não existe”, afirma Lorenzi.
Fatores macroeconômicos, como a cotação baixa do dólar e a queda do poder de compra do consumidor brasileiro, contribuem para o cenário. No entanto, o presidente da ACCS aponta o incentivo desordenado ao crescimento por parte de indústrias e cooperativas como o principal agravante. O mercado foi inundado por um aumento abrupto na oferta, impulsionado pelo acréscimo de 105 mil matrizes, que são as fêmeas reprodutoras. Houve também a elevação dos índices de produtividade e do peso de abate, que ultrapassa os 130 quilos por animal.
Para a entidade, o descompasso atual poderia ter sido evitado com um planejamento mais rigoroso. “É inadmissível de um ano para outro aumentar 105 mil matrizes em um plantel. Se nós tivéssemos uma produção menor, sem dúvida, nós continuaríamos com a margem dentro da propriedade rural e dentro da indústria”, destaca o presidente. Ele ressalta ainda que a desvalorização do suíno no campo não tem chegado às gôndolas dos supermercados. Com exceção de promoções pontuais aos finais de semana, o consumidor final continua pagando preços elevados pela carne suína.
Somado ao desequilíbrio do mercado, o setor é pressionado por cobranças tributárias retroativas. O governo estadual passou a exigir o pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) referente aos últimos cinco anos para produtores que venderam animais para fora do Estado. A ACCS critica a falta de orientação anual por parte do fisco, o que gerou dívidas milionárias sem que os suinocultores tivessem a chance de se adequar.
O produtor lida também com os custos das novas normativas de biosseguridade, um conjunto rigoroso de medidas para prevenir a entrada de doenças nas granjas. Assinados no ano passado, durante um período de projeções financeiras otimistas, os protocolos agora exigem investimentos que o suinocultor não tem condições de bancar.
A recuperação do setor, segundo a associação, exige uma ação coordenada e imediata de toda a cadeia produtiva, incluindo a redução do plantel por indústrias, cooperativas e produtores independentes. A ACCS alerta que a crise não será resolvida apenas por governos e cobra o fim da omissão de dados reais de expansão por parte de algumas empresas.
“Agora não adianta achar culpado. Nós temos que nos abraçar, poder ter essa transparência e saber sentar numa mesa e mostrar os números reais para que essa suinocultura continue pujante, mas, acima de tudo, para que o produtor continue com qualidade de vida”, conclui Lorenzi.